Rauer - Página Literatura


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NESTA PÁGINA:

PÁGINA “LITERATURA”:

NOITE FELIZ – CONTO DE LUIZ VILELA
O POETA REVELA... – ENTREVISTA EXCLUSIVA COM MANOEL DE BARROS
DO ÍNFIMO AO INSÓLITO EM MANOEL DE BARROS – ENSAIO DE KELCILENE GRÁCIA
LUIZ VILELA: RISO. IRONIA E SÁTIRA – ARTIGO DE RAUER
HAROLDO DE CAMPOS: MORRE O POETA, ENSAÍSTA E TRADUTOR
DEUS E O DIABO NA TRANSLUCIFERAÇÃO DE HAROLDO
A CIDADE DE VOSSOS SONHOS – CONTO DE ROBERTO MACIEL
PLENILÚNIO – CONTO DE ALCIENE RIBEIRO LEITE
E VILELA DEIXA “AS COISAS COISEAREM” – POR JOSÉ CARLOS ZAMBONI
QUINTAIS ANTIGOS – CONTO DE MARCELO RIBEIRO LEITE DE OLIVEIRA
COMPANHIA DOS CONTOS – RESENHA DE JOAQUIM BRANCO
DE COPACABANA A BUDABESTE – RESENHAS DE NÍZIA VILLAÇA
ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO – RESENHA DE RONALDO CAGIANO
DOS CONCURSOS LITERÁRIOS E SUAS MUITAS HISTÓRIAS – ARTIGO DE RAUER
LUIZ VILELA: A IMPORTÂNCIA DOS CONCURSOS

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Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 1, Ituiutaba, 28-29 de dezembro de 2002.

NOITE FELIZ

Luiz Vilela *

Entre, Pai. Entre, Mãe. Entre, Joaquim. Vô Zeca. Vó Mariquinha. Tio Nunes. Rosa. Que bom, que bom que você vieram – eu estou tão feliz. Vai ser uma noite linda. Vai ser a noite mais bela de todas. Vamos, sentem, ocupem seus lugares.
E o Pretinho? Por que o Pretinho não veio? Você também devia ter vindo, Pretinho. Aí eu te pegava e te punha no colo – você era tão macio, tão quentinho. Miau... miau... Que saudades, Pretinho...
Sentem, sentem. A senhora está tão bonita com esse vestido, Mãe. Vô, o senhor não larga seu cigarro de palha, hem? E o senhor, Tio Nunes, cuidado, não vai contar aquelas piadas bobagentas. Vó Mariquinha, sabe que a senhora fica muito elegante com esse coque? E a Rosa? Sempre com esse sorriso... Joaquim, quantos anos, hem? Quantos anos... Eu não queria isso, juro que eu não queria...
Não! Não e não! Onde está sua fibra, menina? Minha fibra? Minha fibra está aqui – ora, bolas. Pensaram que eu fosse fraquejar? Pois estão muito enganados. Quem vos fala é a Aristotelina – a Lina. Há meses que eu venho planejando essa noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.
Será uma noite única. Será uma noite sem igual. Nem todas as luzes de todas as casas juntas da cidade brilharão mais do que esta casa nesta noite de Natal. Nem todas as luzes de todas as ruas... Ai, Lina, você é impagável; parece que você nunca saiu do palco. Não saí mesmo: você sabe, uma vez atriz...
Joaquim, lembra aquele Natal em que eu te pedi uma porção de lâmpadas – eu ua iluminar toda a casa, ia fazer um colar de lâmpadas – e aí você me trouxe... Ah, meu Deus... Você me trouxe meia dúzia, Joaquim, meia dúzia de lâmpadas! Então eu falei: o que eu vou fazer com meia dúzia de lâmpadas? O que eu vou fazer?Aí você... Você falou... Eu não lembro... O que você falou?... Eu não lembro... Minha memória... Minha cabeça...
Noite feliz, noite feliz, o Senhor, Deus do amor, pobrezinho, nasceu em Belém. Não foi fácil: cada garrafa, um posto. Naquele maior, o sujeito: para quê? Eu: não é da sua conta. Ele: se eu não souber, eu não posso vender. Eu, então: é para tirar a cera do assoalho, assoalho de tábuas, casa antiga. Antipático. Depois, no último posto, o rapazinho: e aí, vó, vai virar motorista agora? Vou, eu vou fazer uma viagem pro céu. Então me leva com você, que a coisa aqui na terra tá braba. Mas ele foi gentil, ele foi atencioso.
Os sinos, eles estão batendo. Missa da meia-noite. Onze e quarenta e cinco.Quinze minutos. Nunca houve ninguém tão só. Nunca alguém, nesse mundo, se sentiu tão só. Nem se eu estivesse – só eu, só eu de gente – nem se eu estivesse lá num deserto de Marte ou lá numa cratera da Lua. Se o telefone tocasse. Se o telefone tocasse, talvez...
Chega. É hora. A meia-noite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, o Senhor... Uma garrafa aqui; assim. Outra aqui... Agora essa... Mais essa... E essa... Pronto. Que cheiro forte... Podia ser o cheiro de jasmim que antigamente, nas noites de verão, entrava pela janela aberta e inundava esta sala onde todos nos reuníamos e conversávamos e éramos felizes...
Meia-noite. Pego esta caixa; tiro um fósforo; risco e... Eis! O fogo!

* Luiz Vilela é ficcionista. Publicou, até o momento, seis coletâneas de contos, duas novelas e quatro romances, além de onze antologias. Seu mais recente livro é a coletânea “A cabeça” (Cosac e Naify, 2002), que vem colhendo ampla repercussão positiva e já está na segunda edição.

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Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 2, Ituiutaba, 31 de janeiro de 2003.

O POETA REVELA “UMA FORMA ERÓTICA DE ESTAR COM AS PALAVRAS”
Em entrevista inédita, Manoel de Barros afirma: “Os limites me incomodam”

Kelcilene Grácia da Silva *

Campo Grande, região Centro-Oeste. Terra de grandes belezas e cenários deslumbrantes. Rios, árvores, animais numa profusão rara de se encontrar em outro lugar. E o Pantanal. Vou ao encontro de Manoel de Barros. E o poeta me diz: “No Pantanal ninguém pode passá régua. A régua é existidura de limite. E o Pantanal não tem limites”.
Estamos no dia 13 de maio de 1997. Manoel de Barros me atende, abre-me ele mesmo a porta de sua casa, um largo sorriso, um jeito maroto e nada de timidez. “É, eu sou de bugre”, ele diz.
Logo após as saudações, pergunta-me: “Quais são os seus escritores favoritos?” Eu respondo. Ele comenta: “Também os aprecio”. A impressão que tenho é de que o poeta é um exímio observador. Quase todo o tempo, entre uma pergunta e outra que eu faço, ele me lança questionamentos, aos quais eu respondo. Está testando-me.
Mas o poeta é categórico em um ponto: “Não atendo ninguém que não tenha lido pelo menos uma obra minha”. Conversamos durante quatro horas.
Depois, entrei em contato por telefone. Queria fazer-lhe questões para anexar à dissertação de mestrado. Barros me respondeu: “Não falo com máquina (gravador). Além do mais, tenho o direito de querer ser perfeito. Entrevista, só por escrito”.
Enviei as perguntas. Eis a íntegra dessa entrevista, nunca publicada antes na imprensa.

Kelcilene -A obra do Sr. parece alegorizar o próprio ato poético na medida em que se utiliza do Logos, reor-ganiza o Caos e funda um novo Cosmos. Há uma recriação do real, que muitas vezes pode ser confundida com a desordem. E o poeta olha para o mundo, se coloca no centro desse mundo para melhor compreendê-lo e dele fazer sua matéria poética. Mas o olhar que o poeta estende sobre o mundo é um olhar oblíquo, que enseja uma visão transgressora e que foge do que o comum dos homens tem como real. Do conjunto das obras, qual o Sr. destacaria como capaz de dar o perfil mais adequado de sua visão de mundo e de seu conceito de poesia?

Manoel de Barros - Todas as minhas obras têm um desejo de transgressão. Em algumas acerto mais no erro. Em outras erro mais no acerto. Só uma questão de linguagem. Não há fugir. O que me move é fazer frases tortas, sintaxes tortas, semânticas desdobráveis. Sou um ser contraditório, incerto, inseguro. Sou filho copiado deste século. Sou portanto fragmentado, desmembrado, esquartejado. Como, pois, poderia ter uma linguagem ar-rumadinha? Não evito as pedras. Os limites me incomodam. As regras de gramática me agridem, me trancam. Quero ser livre como as águas. Tenho uma linguagem transgressora porque sou uma pessoa muito comportada. Pra corromper o meu comportamento tenho que corromper o idioma, tenho que abominar o mesmal. Creio que meu livro Matéria de poesia pode ser um compêndio onde eu parei para me de-sexplicar melhor.

Kelcilene - A poesia do Sr. parece enquadrar-se naquilo que Erza Pound considera como “a forma mais condensada da expressão verbal”. Basta um olhar sobre os textos do Sr. para se notar a diferença entre a expansão da linguagem nas primeiras obras e a extrema condensação nas últimas, a ponto de o poema se constituir de apenas um ver-so, ou uma linha tornada signo poético, no dizer de Cassiano Ricardo. Como se deu o cami-nho que vai da maior expansão para a condensação da palavra?

Manoel de Barros - Fui descobrindo em tempo que poesia não tem a função de explicar nada. Não tem fun-ção de dar idéias, não tem função de descrever. Andei com inveja das línguas indígenas que não classificam. Fui mais longe: andei vendo que a língua dos pássaros só celebra. Só emite gorjeios. Só há despala-vras na linguagem dos pássaros. Há só amavios e cantos. Comecei a cortar adjetivos. Fazer que uma palavra tingisse a outra seguinte só pelo odor, só pelo som, só pelas cores. Dispensei alamares. Dis-pensei penduricalhos. Acabei nas frases magras. Acabei desco-brindo a luz do opaco.

Kelcilene - O Sr. afirma em muitas entrevistas que a sua formação está assentada na literatura clássica; nos quinhentistas Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Camões; nos barrocos Frei Luís de Souza, Manoel Bernardes, Pe. Antônio Vieira; voltando-se também para a Literatura Francesa: Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud; e para a Literatura Brasileira: Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros. Até que ponto esses poetas e au-tores comparecem em suas obras?

Manoel de Barros - Aprendi a Língua Portuguesa com os quinhentistas sobretanto em Camões, em Vieira. Depois aprendi escrever o silêncio com Rimbaud. Aprendi umas certas molecagens com Oswald de Andrade. O Rosa me convidou para estuprar as gramáticas. Confesso que aprendi muito lendo os franceses. Pois nos tempos que eu era rapaz no Brasil se importavam mais os livros franceses.

Kelcilene - Apesar de sua aparente aversão pela “análise estupradora” que desvirginiza a grande poesia, se-gundo sua própria afirmação, como o Sr. vê o trabalho acadêmico que mais e mais tem se voltado para o conhecimento e divulgação de sua obra?

Manoel de Barros - Sou capaz de adotar uma boa frase ainda que ela não me proteja. Nas lides de escrever, entre uma boa frase e uma verdade, escrevo a frase. Porque meu gozo não é fazer verdades, mas fazer frases. Aprendi isso com Vieira. Vieira às vezes conspurcava as suas crenças para fazer uma boa frase. Repara que nos meus livros eu não tenho assunto. Eu só tenho frases.

Kelcilene - Os autores ainda que digam terem poucos leitores, no fundo eles querem ter muitos. O Sr. tem consciência que seus textos poéticos podem ser lidos por qualquer tipo de leitor ou eles esperam um leitor especial?

Manoel de Barros - Eu tenho consciência que os meus textos pedem leitores especiais. Não tenho ilusões. Pouca gente gosta de gratuidades. Eu só tenho vadiagens com letras. Isso é coisa de tonto. Já imaginou amar o corpo fônico das palavras? Não é uma doce inocência? Pois eu costumo adoecer dessa inocência. Minha poesia é produto muito da contemplação do corpo fônico das palavras. É uma forma erótica de estar com as palavras.

Kelcilene - O Sr. afirma que suas entrevistas têm o mesmo valor estético de suas obras e que revelam uma prática de reflexões sobre o objeto literário, estabelecendo com ele uma relação lúdica. Essas entrevistas pos-sibilitam ler melhor o que está no centro, no entanto, com o mesmo poder de poesia, ora es-clarecem, ora velam, criando uma semântica de imagens que, cheia de infiltrações da pluralidade literária, mais encobrem do que revelam. Percebe-se que mesmo fazendo a reflexão, o poeta está sempre presente. Por que nessa reflexão teórica o poeta sempre se revela?

Manoel de Barros - É verdade. As reflexões que faço nas minhas entrevistas por escrito mais me encobrem do que revelam. Respondo as perguntas pensando em compor um objeto artístico. Às vezes não consigo, mas é assim que eu gostaria que fosse. Ao pensar nas entrevistas por escrito sempre imagino que ela possa ser uma peça de criação e não uma peça de informação. Eu também gosto de escrever o silêncio.

Kelcilene - A revista Bravo, em entrevista realizada com o Sr., anuncia o breve lançamento de seu novo livro Para encontrar o azul eu uso pássaros. O Sr. poderia dizer alguma coisa sobre esse novo livro?

Manoel de Barros - Depois de muitos títulos que inventei durante a elaboração do meu novo livro, acabei adotando este: Retrato do Artista quando Coisa. Lembra Portrait, de Joyce. Só que o retrato do Joyce era de um homem e o meu é de uma coisa.

* Kelcilene Grácia da Silva é professora de Literatura Brasileira da UFMS, Câmpus de Aquidauana. Faz doutorado em Estudos Literários na Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara. Sua dissertação de mestrado, “A poética de Manoel de Barros: um jeito de olhar o mundo”, foi defendida em 1998 na Unesp de Assis e teve por orientador o Prof. Dr. Valdevino Soares de Oliveira. Contatos: kelcilenegracia@uol.com.br.

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Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 2, Ituiutaba, 31 de janeiro de 2003.

DO ÍNFIMO AO INSÓLITO EM MANOEL DE BARROS

Kelcilene Grácia da Silva *

”É no ínfimo que eu vejo a exuberância.”
Manoel de Barros

A poesia de Manoel de Barros é construída de rupturas, de frases fragmentadas, de montagens insólitas, de metáforas complexas, inusitadas e incongruentes. As categorias gramaticais passam nas mãos do poeta por um processo de subversão, através do qual adquirem um valor diferente, ditado não por regras estabelecidas, mas pela necessidade de traduzir a realidade em uma nova semântica.
Barros estabelece relações inesperadas entre as palavras, libertando-as das grades que as revestem e as limitam. Instaura, dessa forma, ambigüidades que se enraízam na desestabilização dos sentidos. Assim, o poeta apresenta uma linguagem fora