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NESTA PÁGINA:

ESTUDOS LITERÁRIOS:

CONTOS DE LUIZ VILELA MOSTRAM A FORÇA DA HISTÓRIA – RESENHA DE RAUER
“DORAMUNDO”: UM DIA O SOL ROMPERÁ A NEBLINA – RESENHA DE RAUER
COM O NARIZ, O OLHO E A ALMA DO MERCADO – RESENHA DE RAUER
FREUD E OS “LUGARES INTOLERÁVEIS” – ARTIGO DE WANIA MAJADAS

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Jornal “Correio”, Uberlândia, 9 de janeiro de 2003.

Em julho de 2002, num bar da região da Avenida Paulista, em São Paulo, foi lançado o livro “A cabeça”, com o qual a Editora Cosac & Naify deu a lume o retorno ao conto do ficcionista ituiutabano Luiz Vilela, que passou 23 anos sem publicar livro reunindo contos inéditos – Jornal Correio, Uberlândia, 08/01/2003

CONTOS DE LUIZ VILELA MOSTRAM A FORÇA DA HISTÓRIA

Narrativas de "A Cabeça" constituem num dos principais momentos da literatura brasileira de 2002
O ESCRITOR Luiz Vilela: domínio do texto e diálogos memoráveis

Rauer Ribeiro Rodrigues (*)
Especial para o CORREIO

Em julho de 2002, num bar da região da Avenida Paulista, em São Paulo, foi lançado o livro "A cabeça", com o qual a Editora Cosac & Naify, sob a direção editorial do professor Augusto Massi, deu a lume o retorno ao conto do ficcionista ituiutabano Luiz Vilela, que passou 23 anos sem publicar livro reunindo contos inéditos. Prolífico contista nos anos 60 e 70, com cinco coletâneas lançadas em 12 anos, desde 1979 o escritor publicou somente romances e novelas, assim como antologias de contos dos volumes anteriores.
A peculiar situação, de surgir na cena literária já com um livro consagrador, como foi o "Tremor de Terra", com o qual Vilela arrebatou o Prêmio Nacional de Ficção, de Brasília, em 1967, e depois lançar, em ritmo vertiginoso, os volumes de contos "No Bar" (1968), "Tarde da Noite" (1970), "O Fim de Tudo" (1973) e "Lindas Pernas" (1979), transformou o autor num mito literário, num monstro sagrado, em um mestre do conto, no Tchekóv escondido entre as montanhas das Gerais. Essas expressões, é bom que se diga, pipocaram nos jornais e nos meios acadêmicos naquele período.
A mitologia em torno do autor cresceu na medida em que ele, após residir em Belo Horizonte e em São Paulo, e após ter passado boa temporada nos Estados Unidos e na Europa, recolheu-se à sua Ituiutaba natal, onde, segundo se divulgava, dedicava-se à pacata vida de sitiante criador de vacas (em recente artigo de jornal, foi transformado em criador de frangos). Ao que parece, imaginava-se nas capitais que Vilela trocara as luzes cosmopolitas (e todas as suas benesses) pelos bruxuleantes reflexos dos lampiões de outrora.
Como todo mito, é uma verdade essencial à qual não corresponde a verossimilhança factual. Prova disso são os romances e novelas produzidos pelo autor, e que refletem (pensam e mostram) o Brasil que se urbanizava de forma acelerada, e que vinham a lume regularmente: "Os Novos" (1971), "O Inferno é Aqui Mesmo" (1979), "O Choro no Travesseiro" (1979), "Entre Amigos" (1983), "Graça" (1989), "Te Amo Sobre Todas as Coisas" (1994), e, já anunciada para o início de 2003, pela Cosac & Naify, a novela "Perdição". Também foram lançadas 11 antologias de seus contos.
O surgimento agora desse "A Cabeça" produz, de imediato, um voltar de olhos para os contos que Vilela produziu nos anos 60 e 70 do século passado. O primeiro impacto do livro é sua linguagem cristalina, precisa, leve, adequada, através da qual surgem temas e situações densas, patéticas, crispadas. O coloquial dos diálogos que se sucedem, recheado das frases mais triviais e pontuado pelo silêncio angustioso da comunicação que almeja encontrar o seu destinatário, mas que encontra somente o eco de sua própria solidão, esse coloquial não se furta ao lugar-comum banalizado. Seguindo o comentário de Augusto Massi na orelha do livro, observamos que em A cabeça o narrador ausenta-se para dar a voz a seus personagens, e dessa polifonia nos vem uma linguagem reificada pelo uso, coisificada pela insensibilidade dos que dela se servem.
Ou seja, o domínio do texto e do diálogo num patamar a que poucos autores chegam, permite a Luiz Vilela utilizar clichês lingüísticos com a sem-cerimônia dos que penetram "surdamente no reino das palavras", e desse reino, como nos ensina o poeta, desencava a sua arte e a sua profissão de fé literária.
Voltamo-nos, então, para o segundo impacto de "A cabeça". Registra-se no livro a agudização dos conflitos interpessoais, uma tensão irresolvida, um conflito latente e contínuo. Sob a epiderme dos personagens do livro, pulsam corações duros, inclementes, norteados pelo raciocínio do interesse imediato e do egoísmo existencial.
E é nos temas e no significado que agora surge para esses temas, junto com sutis mudanças na utilização dos recursos literários com relação aos primeiros contos do autor, que os contos de "A Cabeça" mostram, para o leitor da obra de Vilela, o abismo entre o Brasil dos anos 60 e 70 do século passado e o Brasil desse início de terceiro milênio. Não se trata, está obvio, de não existirem permanências históricas, de não se vislumbrar, nos galhos hodiernos, as sementes do passado. Trata-se de constatar que o Brasil que aceleradamente se urbanizava nos anos 60 despeja hoje, no mercado de trabalho, milhares de jovens adultos que já nasceram nos centros urbanos; trata-se de, num movimento sincrônico, rever em um átimo a diacronia que medeia o Brasil dos generais carrancudos ao Brasil da ascensão da estrela vermelha, vivendo entre estes extremos a esperança da redemocratização, a alegria dos caras-pintadas e a lancinante inserção do país na globalização financeira neo-liberal.
A banalização da violência urbana, a miserabilização dos pequenos empreendedores, a decisão irrevogável do suicida, a voz feminina tornando-se audível, o Eros que domina, precocemente, a infância e avança sobre a família e contamina o "sagrado", a política municipal como meio de cínica exploração, a insensibilidade dos que detém riqueza para com aqueles a que exploram, a angústia de não se ver livre de cobranças nem durante a cervejinha do fim da tarde. Cada item constitui a motivação essencial de um conto em "A cabeça". São narrativas que transcorrem em espaços e indiciam rastros dos quais podemos encontrar símiles no trabalho anterior de Vilela.
Dessa forma, situações presentes em contos dos anos 60 e 70, como, por exemplo, o relacionamento de um casal, evolui do conto "Nosso Dia", em "Tremor de Terra", onde a mulher serve amorosamente ao marido e recebe dele, em troca, um arroto humilhante, para o diálogo de "Catástrofe", de "A Cabeça", no qual a mulher informa ao seu companheiro a iminência da chegada de uma visita que desagrada profundamente ao homem, mas agora o que resta a ele, em meio ao seu rancor, é acomodar-se, proclamando chistes que denunciam a sua impotência de comando.
A crítica acerba que produzia o riso satírico diante das instituições humanas está presente nos primeiros contos de Vilela, e nesse novo livro se mantém. Mas a comparação entre os contos dos cinco primeiros livros e os de agora, numa primeira visada, parece indicar as marcas da história. O fluir do processo histórico, a força do tempo, as mudanças sociais, o novo cenário econômico, as alterações comportamentais, a visão de mundo que as pessoas trazem internalizada, tudo isso, nos parece, pode ser visto no confronto entre o Vilela dos primeiros livros e o Vilela do livro de agora.
A força dessas narrativas curtas é de tal monta que, do lançamento, em julho, até agora, já surgiram mais de duas dezenas de resenhas críticas nos principais veículos de imprensa do Brasil. Cada uma delas destaca um conto como uma obra-prima da contística brasileira contemporânea. O detalhe é que, como cada articulista elege um conto como o seu favorito, num relancear descobrimos: todos os contos desse livro já foram citados como primorosos, exemplares, essenciais, definitivos.
Você precisa de mais algum motivo para providenciar, com urgência, o seu volume desse que é, seguramente, um dos principais lançamentos da literatura brasileira de 2002?

Os livros de Luiz Vilela:

CONTOS
- Tremor de Terra. Belo Horizonte: edição do autor, 1967; 7ª ed., São Paulo: Ática, 1980.
- No Bar. Rio de Janeiro: Bloch, 1968; 2ª ed., São Paulo: Ática, 1984.
- Tarde da Noite. São Paulo: Vertente, 1970; 6ª ed., São Paulo: Ática, 2000.
- O Fim de Tudo. Belo Horizonte: Liberdade, 1973.
- Lindas Pernas. São Paulo: Cultura, 1979.
- A Cabeça. São Paulo: Cosac & Naify, 2002; 2a ed., 2002.

ANTOLOGIAS INDIVIDUAIS
- Contos Escolhidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978; 2ª ed., Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.
- Uma Seleção de Contos. São Paulo: Nacional, 1986. 2a ed., ampliada, São Paulo: Nacional, 2002.
- Contos. Belo Horizonte: Lê, 1986. 2a ed., prefácio de Carlos Felipe Moisés, São Paulo: Nankim, 2002.
- Os Melhores Contos de Luiz Vilela. São Paulo: Global, 1988; 3ª ed., São Paulo: Global, 2000.
- O Violino e Outros Contos. São Paulo: Ática, 1989; 6ª ed., São Paulo: Ática, 2000.
- Contos da Infância e da Adolescência. São Paulo: Ática, 1996; 2ª ed., São Paulo: Ática, 1997.
- Boa de Garfo e Outros contos. São Paulo: Saraiva, 2000.
- Sete Histórias. São Paulo: Global, 2000.
- Chuva e Outros Contos. São Paulo: Ed. do Brasil, 2001.
- Histórias de Família. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.
- Histórias de bichos. São Paulo: Ed. do Brasil, 2002.

ROMANCES
- Os Novos. Rio de Janeiro: Gernasa, 1971; 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
- O Inferno é Aqui Mesmo. São Paulo: Ática, 1979; 2ª ed., São Paulo: Ática, 1983; São Paulo: Círculo do Livro, 1988.
- Entre Amigos. São Paulo: Ática, 1983.
- Graça. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
- Perdição. Lançamento previsto para o final de 2004.

NOVELAS
- O choro no travesseiro. São Paulo: Cultura, 1979; 9ª ed., São Paulo: Atual, 2002.
- Te amo sobre todas as coisas. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

(*) Rauer Ribeiro Rodrigues é escritor.


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Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 3, Ituiutaba, 14 de fevereiro de 2003.

DORAMUNDO: UM DIA O SOL ROMPERÁ A NEBLINA

Rauer *

O livro de Geraldo Ferraz é um marco na literatura brasileira, constituindo-se num desses clássicos imortais pouco lidos e pouco conhecidos. A história de amor entre Teodora, a Dora, e Raimundo, o Mundo, fundidos como amantes e no título da obra, é apenas um tênue pano de fundo para a denúncia da intransigência moral que esconde outras violências: a violência do capital que espolia os desvalidos, a violência da polícia contra os que não tem costas-quentes, a violência política contra os opositores do regime.
A denúncia se faz num caleidoscópio de múltiplas vozes que se entrecruzam contando os eventos, e o relato de Geraldo Ferraz avança vertiginoso, colhendo essas vozes, dando a elas dimensão de vozes que se expressam na sua angústia e aflição, na sua ânsia de líberdade, em seu desejo irrefreável de ter da vida mais do que os sete palmos do fúnebre adeus.
Jornalista de profissão, combativo no campo estético e na política, amantíssimo companheiro dos últimos anos da figura mítica de Patrícia Galvão, a revolucionária Pagu, Geraldo Ferraz nasceu em 1905 e faleceu em 1979. A primeira edição de “Doramundo”, de 1957, foi recebida com rasgados elogios pela crítica.
“Na força caliginosa de outra noite, acertam-me, sou um boi”, diz o romance à página 74 (Ática, 4a ed., 1984), no momento em que as estranhas mortes que rondam a pequena estação férrea de Cordilheira – o espaço do romance, magnificamente reproduzido no filme de João Batista de Andrade – denunciam o escuro, denso e tenebroso clima que mesclava a neblina da paisagem às almas bovinamente cruéis do vilarejo.
A garoa inclemente que cobre toda a cidade transforma-se numa metáfora da opressão política, da miserabilidade econômica, da exploração capitalista, até mesmo da crueldade dos mexericos e das traições dos amigos. A garoa é uma neblina, uma mistura de neblina e fumaça que invade todos os seres, todas as coisas, e se transforma numa metonímia da alma apodrecida do homem sob um sistema social, político e econômico que libera de todos os mais baixos instintos, quase inviabilizando o amor e as virtudes humanitárias.
O romance termina com o sol subindo, cortando o “smog” frio de Cordilheira – é “um sol triste”, mas é um sol, como a dizer que o sol um dia romperá a neblina que sufoca a humanidade, e sob esse pálido sol, nos trilhos que se afastam do lugarejo maldito, Dora vai com o amante, que, nas sombras da impunidade, foi golpeado violentamente pelos assassinos invisíveis; Dora foge em busca da vida para o seu Mundo, levando dentro de si uma semente dos dois, e na fuga, nos narra a última linha do romance, na fuga a sua mão “vai, sobre um punhado de vida, palpitante, amorosa, ancorada”.
“Doramundo” é romance seminal para os que aspiram contribuir com vida nova na literatura brasileira do terceiro milênio.

* Rauer é escritor. Faz pós-graduação em Estudos Literários na Unesp de Araraquara. É bolsista do CNPq.

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Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 29, Ituiutaba, 12 de março de 2004.

COM O NARIZ, O OLHO E A ALMA DO MERCADO

Rauer

Em “O menino narigudo”, de Walcyr Carrasco (5. ed., São Paulo: Moderna, 1994), é contada a história do garoto Cirano, neto de um ator francês que viera para o Brasil “bem no comecinho do século” (p. 8). Cirano herda do avô o nariz enorme, “nariz, que, para o avô, era motivo de orgulho” (p. 9). Por insistência do avô recebeu o nome, em homenagem a certo personagem histórico, Cyrano, que vivera no século XVII, mas principalmente porque este personagem tivera a vida retratada na famosa obra dramatúrgica de Edmond Rostand que estreara em Paris em 1897.
O menino adora o avô, mas “Com um nome desses e um nariz daqueles, a vida de Cirano às vezes era bem complicada. Amigos, não tinha muitos. Namorada, tentou uma vez” (p. 10): esta namorada, Gabi, faz Cirano testar, com fins de galanteio, sua queda pela poesia. Mas fala um disparate e a namorada o dispensa, depois dele mergulhar com o nariz, “Parecia um banana split!” (p. 11), no meio do sundae da amiga. Com o episódio, Cirano descobre que precisa “dominar as palavras. E isso só se consegue lendo bastante”, e, “Para não fazer vexame, como rimar Gabi com sagüi, ele começou a ler mais, cada vez mais” (p. 12).
O melhor amigo de Cirano é Cristiano, colega a quem Cirano ajuda nas matérias escolares, ensina contas, faz resumos. Cristiano é atleta, vive cercado de garotas, mas em atividades intelectuais “ficava sem entender as coisas, como um burro que não quer sair do lugar” (p. 13). Essa “amizade era o mais importante da vida dos dois”. E assim, chegamos ao fim do primeiro capítulo, intitulado “Nariz no sorvete”. O último parágrafo é composto de uma linha, “Mas, um dia, Roxane mudou para a cidade” (p. 13), e o capítulo termina sem que se esclareça de todo o suspense estabelecido por esta única frase.
A adversativa, com o mistério que criou, é, no entanto, matizada pelo título do segundo capítulo, “Paixão à primeira vista”. Eis a paixão: “Eles se conheceram logo no começo do ano. (...) Cirano estava vidrado na garota. (...) O pai dela era juiz e, desde pequena, ela já tinha mudado várias vezes de cidade” (p. 14-15). De tão apaixonado que está, pela primeira vez Cirano não briga quando alguém, no caso Roxane, comenta sobre o seu nariz. Ele fala em fazer uma cirurgia plástica (p. 16), no que é dissuadido pelo argumento da mãe: “Beleza é coisa relativa, filho. Muitas vezes um nariz grande dá um charme danado. Uma personalidade forte também empresta beleza à pessoa” (p. 17).
Cirano passa os recreios na biblioteca da escola, evitando Roxane. Entretanto, ela também é freqüentadora da biblioteca, onde o encontra. Conversam sobre os livros que já leram, sobre poesia, sobre música. Cirano quer se declarar, mas não consegue. Procura Cristiano, que está acamado, com gripe, mas não tem coragem de pedir, ao amigo, conselho de como proceder. O capítulo termina em nova adversativa: “Mas a vida é movimento. De repente, tudo tomou outro rumo” (p. 22).
Este novo rumo, anunciado no fim do capítulo como um enjambement com o objetivo de fisgar o leitor para a seqüência da leitura, parece estar anunciado no título do capítulo seguinte: “Rival e amigo” (p. 23). O capítulo inicia com Roxane contando a Cirano que não pára “de pensar numa pessoa” (p. 23). Ela descreve esta pessoa como “forte”, “suave, gentil, delicado” (p. 24). Cirano entusiasma-se, imaginando que Roxane está descrevendo a ele, mas ela informa que esse rapaz a salvou de ladrões e que, além de corajoso, “ele gosta de poesia como eu! Estava com um livro do Carlos Drummond de Andrade!” (p. 25).
O rapaz é Cristiano, que saía de um treino esportivo. Cirano pensa em dizer que Cristiano cabula as aulas como se estivesse doente, mas já voltara a treinar, e que não gosta de poesia nem de estudar, mas “não traiu o amigo” (p. 26). À tarde, o próprio Cristiano lhe conta o episódio, diz que estava com o livro de poemas que Cirano lhe emprestara e que tivera de disfarçar quando ela falara sobre poesia com ele.
Cirano o aconselha a estudar e ler muito, para não dar uma de “burraldo na frente dela” (p. 27). Argumenta que para gostar de ler tem de ir lendo: “A gente vai lendo e, de repente, começa a apreciar os versos... as mensagens de cada poeta” (p. 27). Esta fala é secundada pela voz do narrador, que sentencia: “Cirano mal sabia o quanto estava certo. Muita coisa na vida é assim: no início, a gente nem gosta. Então faz um pequeno esforço, e descobre o sabor escondido. Sempre vale a pena experimentar uma coisa que a gente não conhece” (p. 27).
A partir deste momento, Cirano passa a ajudar o amigo, ensinando-o poesias românticas e, escondido, soprando poesias para Cristiano declamar para Roxane. Assim termina este capítulo e transcorre o capítulo seguinte, “Poesias e gafes”, no qual Cristiano, quando não é possível o socorro de Cirano, comporta-se como realmente é, ou seja, alguém de linguagem simplória e com preferências mais prosaicas, como futebol e filmes de aventura.
Mas Roxane está apaixonada pelo Cristiano de tendências poéticas e românticas. E aí, Cirano é insuperável: escreve poemas que o colega copia e envia à amada e cria artifícios para soprar poesias que o amigo declama. Até que “... aconteceu um acidente” (p. 43): o nariz de Cirano, sempre o nariz, engancha-se numa forquilha e ele cai da árvore onde se escondia para cochichar os versos que Cristiano declamava e que comoviam a Roxane. Cirano leva uma bronca de Roxane – ela pensa que ele estava ali apenas para bisbilhotar – e vai embora, cabisbaixo.
Roxane confessa a Cristiano que quando o conheceu “adorava o Cirano”, mas que ficara impressionada com a força e coragem de Cristiano. No entanto, somente isto não a faria apaixonada, o que ela gostava mesmo era da sensibilidade que ele vinha demonstrando: “eu gosto mais da sua cabeça, daquilo que você é por dentro” (p. 45).
Cristiano fica mudo. Era uma declaração de amor, mas não era para ele, era para Cirano. Tenta ser poético, falar de flores. Cita a flor “Boca-de-leão” e a flor “Maria-sem-vergonha”. Roxane o chama de “Bruto!” e sai correndo (p. 46).
O capítulo seguinte é o penúltimo e tem o título “Cai a máscara”. Nele, enfatiza-se, num diálogo entre Cirano e Cristiano, que se deve pensar no que se vai falar: “Se você lesse, não digo bastante, mas sempre um pouquinho por dia, não teria dificuldades em achar palavras bonitas. Se soubesse gramática, não falaria errado como um burraldo. Minha mãe me disse, um dia desses, que o principal da escola não é o conceito que a gente tira... mas o que se usa na vida!” (p. 48).
Os dois amigos tentam ainda salvar o namoro de Cristiano, enviando a Roxane um bilhete em forma de poesia (p. 49). Em seguida, Cirano tenta fazer Cristiano decorar falas românticas para um reencontro com Roxane. Mas nesse reencontro, Cristiano se embaraça todo e termina por confessar: “Eu não sou do jeito que você está pensando. Foi o Cirano que me soprou as poesias” (p. 53).
Com raiva, depois de muito pensar no constrangimento daquela situação, Roxane vai tirar satisfações com Cirano. Estamos no último capítulo, “A vitória dos versos”. Cirano tenta se explicar, diz que achava que ela estava apaixonada por Cristiano e que nunca gostaria dele, devido ao seu imenso nariz. Ela responde: “se, pelo menos, tivesse o coração do tamanho do nariz, você seria feliz!” (p. 55).
Depois da rima, que não foi uma solução, Roxane foi embora, “nervosíssima” (p. 55). Cirano conversa com a mãe, conta o que aconteceu e que se inspirou “Na peça ‘Cyrano de Bergerac’, [onde] acontece a mesma coisa” (p. 56). A mãe se lembra que, na peça, Roxane somente descobre a tramóia dos amigos quando Cyrano morre, mas que ele deve mostrar à sua Roxane que ele é “que descobriu todas aquelas poesias bonitas”, e que assim, talvez, ela o perdoasse.
Inseguro, Cirano argumenta sobre o seu nariz, ao que a mãe diz que se ela gostar “dos seus versos, esquecerá o nariz” (p. 56). Ele procura a amiga, que o rechaça. Ele começa a declamar poemas de Fernando Pessoa. Roxane se derrete toda. O pai de Roxane convida Cirano para entrar. Cristiano, depois disso, até “começou a ler um pouco mais” e a escrever artigos sobre esportes para o jornalzinho da escola. Cirano e Roxane trocam poesias, versos e beijinhos. Pensam até em um dia se casar. “Por enquanto”, diz a última linha desta história, “estão felizes para sempre” (p. 60).
O autor de “O menino narigudo” não esconde suas fontes, de Rostand aos poetas escolhidos por Cirano para as declamações que faz ou as que sopra para Cristiano. Informa também, em subtítulo, que seu livro foi “livremente inspirado na história de ‘Cyrano de Bergerac’” (na página de rosto do livro). No prefácio, “História de uma história”, fala sobre o surgimento da peça Cyrano de Bergerac, sobre a vida de Rostand e sobre a vida do Cyrano, personagem histórico, considerando-a “uma história imortal” (p. 7). No posfácio, “Autor e obra”, faz considerações de que o verdadeiro valor das pessoas não é a beleza física, mas o tesouro que cada um tem dentro de si. Fala também da beleza da arte, da poesia e da música, que “nos ensina, nos ajuda a refletir, a descobrir novos sentimentos” (p. 61).
A última capa do livro, de responsabilidade da editora, apresenta, com estas palavras, a recriação feita por Carrasco: “O eterno triângulo amoroso numa versão juvenil, criativa e atualizada do romance clássico de Edmond Rostand”.
Temos, portanto, um livro que não esconde suas fontes. Temos propósitos claros do autor. Temos os personagens principais, ou seja, aqueles que formam o triângulo amoroso da peça de Rostand. Temos alguma coisa do tom de comédia do original. Temos famílias constituídas e atuantes, o que não existe no original. Não temos a guerra. Não temos a tragédia do original. Não temos um amor entre primos. Editorialmente, temos uma obra que se propõe a ser uma versão “juvenil”, ou seja, uma “tradução” para jovens do “Cyrano de Bergerac” original.
O vocábulo “tradução” é utilizado aqui de forma abrangente, que inclui não só as versões de uma língua para outra, mas também as adaptações, inclusive as intersemióticas, e as recriações. Ramon Jakobson (“Aspectos lingüísticos da tradução”, in “Lingüística e comunicação”, tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes, 15. ed., São Paulo: Cultrix, 1995, p. 64-65), afirma que existem três tipos de tradução: 1) A tradução intralingual ou reformulação (rewording), que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua; 2) A tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua; 3) A tradução intersemiótica ou transmutação, que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais. No presente caso, ocorreu uma tradução do primeiro tipo, após, implicitamente, uma tradução do segundo tipo.
Em “O menino narigudo” temos, portanto, uma obra que, editorialmente, se propõe a ser uma versão “juvenil”, no português do Brasil do final do século XX, de um “romance clássico de Edmond Rostand”. Ora, não se trata de romance, mas de peça dramatúrgica, escrita em língua francesa no final do século XIX. A opção em traduzir o texto numa versão para adolescentes implicou em omissões, em modificações, em adaptações. Desapareceu o cenário de guerra e o heroísmo que somente a guerra propicia. Desapareceu o Cyrano brigão e irresponsável. Desapareceu o incesto do relacionamento entre primos. Em suma, desapareceram as questões polêmicas e o que não fosse politicamente correto. Embora construída de forma verossímil e saborosa, a obra toma, portanto, um tom pedagogizante e de defesa das chamadas “boas atitudes”.
Umberto Eco, em “Apocalípticos e integrados” (2. ed., São Paulo: Perspectiva, 1975), expõe os dois diferentes modos em que o intelectual, a seu ver, pode se colocar na sociedade. A conceituação considera o ponto de vista das transformações sociais que o intelectual pode indicar e defender em sua coletividade, ou seja, definem a função que o intelectual pode desempenhar no momento em que a sociedade da cultura de massas se impõe, a opção que pode fazer entre lutar por transformações ou acomodar-se ao status quo: “O Apocalipse é uma obsessão do dissenter, e a integração é a realidade concreta dos que não dissentem” (p. 9).
O que vemos na obra de Walcyr Carrasco, ao fim e ao cabo, é a apropriação do “nariz” iconoclasta do “Cyrano” de Rostand, transformando-o em mero apêndice gerador de pastelão e de lições próximas ao que poderíamos cognominar de uma literatura “infantil” de auto-ajuda, o que vemos em O menino narigudo é a indústria cultural moldando o seu produto conforme o olho e a alma da indústria cultural e do mercado, utilizando uma grife clássica e os serviços de um intelectual integrado.

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FREUD E OS “LUGARES INTOLERÁVEIS”

Primeiro livro de Rauer usa o divã do analista para, em nove contos, devassar canais de repressão, neurose e solidão

Wânia Majadas *

Os nove textos que compõem o livro “Lugares Intoleráveis” (São Paulo, Edições Viva Eu, 1982), de Rauer, mineiro de Ituiutaba, encaminham-nos para os canais freudianos, onde a repressão é considerada como um mecanismo de defesa básico da personalidade, comparável a uma tentativa de fuga.

A repressão é um processo através do qual um impulso ou idéia inaceitável é tornado inconsciente, devido haver na mente uma força que exerce as funções de censura. Muitas vezes estas repressões atuam na mente do sujeito de maneira indireta, e as satisfações indiretas ou substitutivas dos impulsos reprimidos constituem os sintomas neuróticos, como podemos observar nos contos “Noite de núpcias” e “O acossador”.

As personagens destes contos são altamente reprimidas, e, conseqüentemente, conduzidas a uma grande ansiedade, pois a descarga motora não as livra deste clima psicológico “intolerável” – o rapaz do “Noite de núpcias”, procurando uma certa compensação por reprimir o seu desejo pela professora, masturba-se desesperadamente, sem conseguir a satisfação plena:

...“meu corpo movendo involuntariamente e contorcendo e a mão apertando e apertando e nunca quando numa contração escondo a cabeça no travesseiro e sinto essa dor por dentro me moendo e acho tudo um nojo e percebo que nada nunca vai mudar, que a vida é uma merda e que jamais acontece algo de novo no mundo de ninguém: nem meu esperma manchando a cama, nem o choro; tudo, sempre, é perda.”

Principalmente devido a motivos culturais, a repressão mais intensa, de acordo com Freud, incide sobre os instintos sexuais, quando a censura do consciente (ego) ou do pré-consciente (superego) vai entrar em choque com a energia psíquica (libido), com os impulsos reprimidos (que são inconscientes).

No conto “O acossador” o fenômeno pode ser observado através de uma jovem de 22 anos que tem medo dos “próprios desejos” e “preferia a adoração platônica”; mas esta jovem, de repente, vê-se perseguida, em pleno rush paulistano, por um homem “alto e mulato, com barba rala e sem fazer”:

“Qualquer desejo de aproximação maculava sua pureza e santidade. Pureza, aliás, que não era só dela, era imemorial, vinha desde os tempos de suas bisavós, e era a última herdeira; achava que tinha em si, atávicas, as fórmulas e receios das antepassadas; às vezes, idéias e desejos que sentia eram imediatamente sufocados pelas regras inconscientes que carregava dentro de si.”

Em alguns contos surge, mesmo, uma certa abstração surrealista, como no último parágrafo do conto “Tudo tem que mudar”:

“Estava ensimesmado quando um temor, de sua impotência, lhe paralisou indefinível o pensamento. Saindo de seus sonhos, os olhos meio esgazeados, percebeu que o cachorro passava correndo de volta; fez um gesto lento com a mão, continuou sentado mastigando o bolo de saliva.”

Outro momento também muito próximo do supra-real, como descrição do automatismo psíquico, encontramos na parte final de “O acossador”:

“Escutou o murro que seu acossador deu na porta, que bateu violentamente na parede e ficou balançando, e o urro de dor que varou-a como se nem existisse. Todas no salão olharam cheias de susto. Ela sentiu o sangue dele se perder anonimamente na grande cidade. A porta ainda balançava de um lado para o outro. Se dela viesse alguma brisa, seria tão forte como um tufão arrastando tudo inexoravelmente, e ela era não o desejo, mas o grito dele ecoando. Estava morta, intuía-se estúpida e sem vida – diria melhor: agonizava imóvel no meio do salão e todas a olhavam, inquietas, sem ação.”

O medo, a solidão, os impulsos reprimidos são elementos recorrentes do autor; Rauer revela o ser oprimido em sua essencialidade, o ser violentado por suas próprias deficiências, o ser envolvido por uma trágica solidão; é um universo de introspecção e subjetividade onde o ficcionista, usando o divã do analista, faz uma devassa no psiquismo de suas personagens, em seus temores, em suas frustrações, em seus “lugares intoleráveis”.

* Wania Majadas é doutora em Literatura. Reside em Goiânia, onde atua como professora universitária e de cursos pré-vestibulares. Fruto de seu mestrado, publicou o livro “O diálogo da compaixão na obra de Luiz Vilela” (Uberlândia, Rauer Livros, 2000). O presente artigo foi escrito em 1982, quando do lançamento do livro “Lugares intoleráveis”, de Rauer.



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