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Rauer - Entrevistas
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___________________________________________________________________________________ NOS LINKS ABAIXO: – PÁGINA PRINCIPAL – PÁGINA “LITERATURA” – ESTUDOS LITERÁRIOS ___________________________________________________________________________________ NESTA PÁGINA: ENTREVISTAS: DIORINDO: A LITERATURA É A MINHA CACHAÇA NEPOMUCENO: “O IMPORTANTE É SER LIDO” ___________________________________________________ Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 18, Ituiutaba, 10 de outubro de 2003. DIORINDO: A LITERATURA É A MINHA CACHAÇA Literatura inicia hoje a publicação da série “Ituiutaba – A Terra do Conto” entrevistando o escritor e jornalista Diorindo Lopes Júnior, que em 1991 venceu o 5o Concurso de Contos Luiz Vilela com o conto “Tempo de ameaça”, ainda inédito. Posteriormente, acumulou outros prêmios literários. Autor de “O Sol em Capricórnio” (Atual/Saraiva Editora, SP) e “Cesta de 3” (Alis Editora, BH), Diorindo reside em São Paulo, capital, onde concedeu na semana passada, ao escritor Rauer, editor desta Página, a entrevista abaixo. Rauer - Após sair da assessoria de imprensa do Banespa, como faz o escritor Diorindo Lopes Júnior para garantir o “pão nosso de cada dia”? Diorindo - Com dois amigos, Danilo Andreoni e Marcos Rabello, estou desenvolvendo um projeto turístico em Ilha Grande, litoral sul do Rio, um paraíso natural que o Brasil conhece muito pouco. Depois de 23 anos “dentro de um cofre bancário”, experimentar conhecimentos novos é fascinante. Também descobri que posso viver muito bem trabalhando muito mais e ganhando muito menos do que no tempo de empregado. Terminei um livro de contos que se arrastava fazia cinco anos, comecei a escrever uma novela sobre o convívio de um pai quarentão com um filho de seis anos, reviso duas histórias nem curtas nem longas. Na cambulhada de novos experimentos, ano passado escrevi todas as letras de um CD, “Grazie a Dio”, com uma velha amiga de faculdade, Graziella Hessel. Quem canta é ela, não se preocupe. (Risos.) Rauer - As coisas caminham bem em Ilha Grande? Diorindo - Se a pergunta refere-se a dinheiro, ainda não. Estamos começando e este é um projeto turístico que leva algum tempo para se firmar, como tudo que é novo. Agora, esta liberdade de escolher meus horários, como, onde e para quem e com quem vou trabalhar, é maravilhosa. Deixei de ter um patrão para ter vários clientes, que acabam ficando amigos e, ficando amigos, tornam-se também um pouco patrões... (Risos.) Rauer - Existe um método de escrever ficção? Como é o seu método? Diorindo - Método eu não tenho nenhum, já manias... Copo de refrigerante/água/suco de cevada do lado, televisão ligada também ao lado, lápis/bloquinhos/canetas/telefone/dicionários à mão, cigarros e cinzeiro, biscoitos de polvilho, bolachas, essas coisas. Também gosto de anotar frases soltas, idéias, recortar notícias. Jogo tudo numa gaveta e deixo lá, amadurecendo – ou apodrecendo. De repente, um dia... Não sei explicar, um dia alguma coisa acontece, escrevo freneticamente e as histórias praticamente se completam sozinhas. Na verdade, passo muito mais tempo lapidando, corrigindo, do que criando. E nunca fico satisfeito. Rauer - Em que difere o trabalho do jornalista do trabalho do escritor? Diorindo - Como jornalista, tenho compromisso com a verdade e sou limitado pelo espaço determinado pelas colunas. Como escritor, meio que “me vingo” desta opressão e solto meus fantasmas. Aí, no branco da tela, vale tudo. Sabe, Rauer, não apenas tive a sorte de nascer em 1958, “o ano que nunca deveria ter terminado”, mas também fui brindado, de cinco para seis anos, com o aprendizado da Leitura. Na época, a imprensa brasileira vivia uma grande transformação com o lançamento quase simultâneo da revista Realidade e do Jornal da Tarde, onde o Vilela também foi um dos pioneiros. As reportagens eram “romanceadas”, como se o Jornalismo investigativo praticasse Literatura. Creio que minha “vocação jornalística” nasceu aí, nessas leituras. Hoje, é completamente diferente: os jornais parecem pasteurizados, a sensação é a de que se lermos um, teremos lido todos. Creio que está faltando um pouco de “poesia” na imprensa brasileira que eu conheci de ler. Rauer - Hoje você envia suas crônicas e artigos para um grande número de jornais do país. Qual a Diorindo - repercussão desse seu trabalho que beira o apostolado? Como é a recepção dos textos? A gratificação vem dos leitores que me enviam mensagens comentando, concordando ou não, contando suas experiências pessoais. Vale a pena por isso, fico conhecendo um número enorme de pessoas. Agora não é um “apostolado”, não. Apenas um meio que encontrei de lembrar ao ‘escritor’ aqui dentro que ele nunca deixará de ser jornalista. Se prestar atenção, verá que as crônicas, e mesmo os artigos, obedecem rigorosamente a um espaço determinado. Rauer - Falemos agora de sua trajetória como escritor. Você sempre fala que o Prêmio Luiz Vilela foi muito importante para você como escritor. Explique essa declaração, do ponto de vista pessoal, como escritor, e do ponto de vista do contexto, da difusão no meio literário. Diorindo - Creio que não houve difusão alguma no meio literário e permaneço um “ilustre desconhecido”, mas do ponto de vista pessoal foi um marco em minha vida. Não apenas pelo significado da premiação e pela qualidade dos concorrentes, mas por levar o nome do Vilela, leitor de carteirinha que dele eu já era. Puxa, eu sabia contar uma história e não sabia disso! Dois anos depois ganhei o Prêmio Paraná de Histórias Infantis e muitos outros vieram na trilha que o Prêmio Luiz Vilela me abriu. Foi graças a este prêmio que arrumei coragem para batalhar patrocínio e lançar minha primeira novela juvenil, “O Sol em Capricórnio”, hoje publicada pela Atual/Saraiva Editora. Rauer - E como se sente o escritor e o cidadão diante do fato de, doze anos depois, o conto vencedor ainda estar inédito? Diorindo - O cidadão se acostumou ao descaso das autoridades com a Literatura, já o escritor sente-se frustrado, claro. A publicação de “Tempos de Ameaça”, com a informação por onde foi distinguido, respaldado pelo nome do Vilela, certamente valorizaria meu tímido currículo literário. Mas imagino que deve ser um incômodo muito maior para ele, que não tem culpa alguma nisso. Política tem essas coisas, é muito raro ver um político dando seqüência ao trabalho iniciado pelo seu antecessor. Rauer - Você está cheio de planos. De vida, profissionais, pessoais, sentimentais. Como escritor. Como jornalista. Fale um pouco desses e de outros planos que está acalentando. Diorindo - Os planos são muitos e se eu fosse destacá-los um a um, Rauer, você teria de descolar com o seu editor uma outra página para o suplemento (risos). Vou resumi-los, ou melhor, reuni-los numa única frase: quero apenas ser feliz. Rauer - Então, vai continuar escrevendo... Diorindo - Costumo dizer que minha cachaça é o teclado de um computador. Escrever, soltar os fantasmas, sai mais barato que sustentar extravagâncias de analistas e terapeutas. Além de dar seqüência aos projetos que estou envolvido, meu objetivo agora é abrir uma página na Internet para vender diretamente meus livros e contos inéditos. Já tenho feito isso, o leitor me envia um e-mail, eu digo quanto é (entre dois e cinco reais), ele deposita o valor na minha conta no banco postal e eu envio o arquivo para ele. Rauer - Você não corre o risco deste comprador distribuir seus escritos? Diorindo - Não vejo problema algum, é a mesma coisa que comprar um livro convencional: você empresta e até tira xerox – o que é crime, ms ninguém toma providência. Todos os meus textos estão registrados na Biblioteca Nacional, meus direitos autorais estão garantidos, e eu penso que é melhor ganhar alguns trocados e ser lido do que ficar murchando dentro de uma gaveta ou na memória do computador. Rauer - Fique à vontade para acrescentar algo mais que ache interessante. Inclusive sobre o fato de ter sido escolhido para abrir essa série “Ituiutaba – A Terra do Conto”. Diorindo - Puxa, então devo ser o primeiro cara a passar na frente do Vilela em qualquer coisa dentro de Ituiutaba, a Terra do Conto. Enquanto meu “Tempos de Ameaça” permanecer inédito, é isso que vai para o meu currículo! (Risos.) Falando sério, sinto-me honrado, privilegiado mesmo. Outras pessoas de mais expressão e qualidade poderiam ter sido convidadas, e tenho certeza de que aceitariam sem pestanejar. Ao mesmo tempo, surge uma preocupação: a de não ter falado nenhuma bobagem nesta entrevista. Dê um grande abraço no Vilela. ___________________________________________________ Jornal “Diário Regional”, Página LITERATURA no 30, Ituiutaba, 26 de março de 2004. NEPOMUCENO: “O IMPORTANTE É SER LIDO” O 8o Concurso de Contos Luiz Vilela, em 1998, revelou um novo talento da literatura brasileira: Luís André Nepomuceno. Nascido no interior de Minas, doutor em Teoria Literária, professor universitário, ainda não tendo chegado aos 30 anos, a qualidade da literatura de Nepomuceno lhe propiciou, pouco depois, um outro prêmio, desta vez internacional. Seu primeiro livro de ficção será lançado este ano, por uma editora carioca. Seu trabalho de pesquisador acadêmico já ganhou as lombadas das livrarias, num volume sobre a poesia do neoclassicismo. Em entrevista ao editor de LITERATURA, o também escritor Rauer, Luís André Nepomuceno fala de seu trabalho de ficcionista, da intersecção do criador com o pesquisador e das leituras e influências marcantes na sua formação como escritor. Rauer: Existe um método para escrever ficção? Qual o seu método? Nepomuceno: Os métodos de escrita de ficção jamais funcionam inteiramente, mas é claro que sempre existem algumas fórmulas básicas de que todo escritor precisa, no mínimo, ter notícia. Mas não consistem, na verdade, de métodos. É preciso, antes de tudo, ler muito: não se escreve sem ler. Do contrário, é querer chegar a um objetivo, sem passar pelos meios e pelos instrumentos. Outra “fórmula” é jamais se deixar levar efusivamente pelo texto, e escrevê-lo às pressas, acreditando que a espontaneidade pode trazer mais sinceridade ao texto. Apesar de ter uma grande disciplina de trabalho, seja na escrita de ficção, seja na pesquisa acadêmica, não tenho um método propriamente: o mais importante, sobretudo na ficção, é que o texto fique um tempo de maturação na minha cabeça. Jamais escrevo uma idéia, logo que ela me surge: sempre penso nela por um tempo, que pode variar de 15 dias a 4 anos, por exemplo. Existem textos quase completos (com começo, meio e fim) na minha cabeça, esperando para serem escritos, há mais de ano. Sei que uma hora virão, mas nunca tenho pressa. Mesmo porque divido meu tempo entre reflexões diversas, e nem sempre me dedico inteiramente à ficção. Rauer: Qual a diferença, para você, entre escrever ficção e escrever uma pesquisa ou uma reflexão acadêmica? Nepomuceno: Durante certo tempo, e talvez por uma influência romântica, acreditou-se que a escrita da ficção deveria estar completamente distanciada do trabalho acadêmico, universitário. Os escritores pós-modernos têm revelado o contrário, a começar por Jorge Luiz Borges, que sempre se dedicou à ficção e ao ensaio. A idéia se revela ainda mais preconceituosa, quando pensamos que inúmeros escritores foram, ao mesmo tempo, críticos de literatura e sempre estiveram às voltas com os problemas estéticos e ideológicos de seu tempo. É verdade que nem sempre se dedicaram à escrita ensaística, propriamente, mas de qualquer forma, sempre houve diálogo entre poesia, ficção e crítica, nos melhores escritores. Hoje em dia, parte dos ficcionistas se encontra nas universidades. Críticos literários que jamais escreveram ficção estão se aventurando no negócio. Mas enfim, escrever ficção e ensaio são tarefas inteiramente distintas: ficção tem ares de liberdade, você escreve o que lhe vem à consciência, a partir de uma reflexão prévia, em que o exercício da escrita pode ou não corresponder aos rigores da forma; ensaio é exercício mais pautado pela razão pura, pela demonstração, pela ciência propriamente. Por fim, jamais tento misturar as coisas: ensaios críticos (sobretudo os de âmbito acadêmico) que se pretendem poéticos ou literários acabam assumindo um trejeito artificial, em que o texto se torna um hibridismo que não é nem uma coisa nem outra. Rauer: Como nasceu o escritor dentro de você? Quando começou a escrever e quais as primeiras leituras? Nepomuceno: A descoberta de meu exercício de escrita foi lenta e trabalhosa: demorei séculos para entender que eu poderia escrever seriamente. No entanto, escrevo desde os 8 anos, por uma razão que não sei qual. Lembro-me que, na adolescência, imitei romances de Agatha Christie (hoje não tenho a menor simpatia pelo romance policial) e, posteriormente, de Lúcia Machado de Almeida, a escritora de Diamantina, que marcou profundamente minhas primeiras leituras juvenis. Escrevi romances inteiros que em tudo imitavam a escritora: na forma, nas idéias, nas cenas e personagens. Nada disso restou. Uma presença mais poderosa, já na idade madura, foi a de Guimarães Rosa, que hoje sempre leio com certa cautela, achando que os excessos de sua linguagem me soam como um barroquismo incompatível com meu estilo de hoje. No entanto, como crítico, e até como leitor, não deixo de respeitar sua força literária e seu engenho. Rauer: Quais os autores que o influenciaram no seu início? Quais os que hoje considera fundamentais para a sua literatura? Nepomuceno: Creio que uma das influências mais marcantes foi Thomas Mann: acho até que minha vida, minha visão de mundo, minha visão de literatura, de estilo estão marcadas por antes e depois da leitura dos romances de Thomas Mann. A clareza de seu estilo, a elegância de sua prosa, o drama de seus personagens que, no fundo, lhe espelham a consciência – tudo isso é certamente um peso e um impacto profundo na literatura do séc. 20. É difícil enumerar os textos fundamentais da literatura, mas enfim, lembro alguns que considero extraordinários: o Decameron, de Boccaccio, pela capacidade de mistura de estilos; Moby Dick, de Herman Melville, pela grandeza trágica moderna; As Viagens de Gulliver, de Swift, pela sátira mais profunda sobre a existência humana (um dos melhores livros que já li); e no Brasil: Graciliano Ramos, em qualquer um de seus livros. É difícil escrever de forma enxuta e precisa como ele; e Machado de Assis, clássico eterno e indiscutível: qualquer palavra dita contra o todo de sua obra será sempre uma infantilidade. Rauer: O que representou para você o Prêmio Luiz Vilela, salvo engano o primeiro de repercussão nacional que venceu? E o da Radio France, que é internacional? Nepomuceno: Premiações têm um momento na vida do escritor, mas de um momento em diante, o importante é ser lido. Não faria a menor questão de vender livros como best-sellers: e isso não vem de um preconceito literário. A literatura não pode partir de um princípio elitista e terrivelmente intelectualizado (como o caso de Joyce, que é lido por meia dúzia). Mas ao mesmo tempo, uma de minhas preocupações é que meus textos sejam lidos, que sejam apreciados e, claro, que sejam amados, mas pelas pessoas certas, sobretudo pelas pessoas que estão dispostas a gostar daquele texto que, por vezes, pode exigir algo mais do leitor. Petrarca, o grande humanista italiano, dizia sempre desejar um leitor que, diante de seu livro, não estivesse pensando no casamento da filha, nem na noitada com a amante, nem no processo jurídico contra o inimigo: ou seja, queria um leitor que, no momento da leitura, estivesse efetivamente com o escritor, dedicado a ele, já que não queria que um sujeito qualquer lesse, sem empenho e vontade, aquilo que ele escrevera com um empenho e uma vontade sem limites. * LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO Nasceu em Patos de Minas em 1968. É professor de Literaturas de Língua Inglesa no Unipam - Centro Universitário de Patos de Minas, desde 1995. É licenciado em Letras, com Mestrado e Doutorado em Teoria Literária pela Unicamp, onde desenvolveu pesquisa sobre as raízes italianas dos poetas do Arcadismo brasileiro. Já recebeu dois prêmios literários: o do 8o Concurso de Contos Luiz Vilela, em 1998, e o Prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, também de 1998. Em decorrência dos prêmios, publicou dois contos em antologias. Freqüentemente publica trabalhos acadêmicos em periódicos, e sua tese de doutoramento deu origem ao volume “A musa desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na Arcádia Brasileira”, lançado pela Editora Annablume. Seu primeiro livro de contos, “Antipalavra”, será publicado ainda em 2004 pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro. Luís André Nepomuceno divide o seu tempo entre as atividades literárias e as atividades acadêmicas, que incluem pesquisa (desenvolve trabalho de pós-doutoramento na Unicamp sobre a literatura de Francesco Petrarca) e ensino. Além de “Antipalavra”, tem ainda inéditos dois romances, nomeados provisoriamente com os seguintes títulos: “A Condenação de Jeremias” e “Cartografias da Imagem”. | ||
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