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_____________________________________________________________________________ NOS LINKS ABAIXO: – PÁGINA “LITERATURA” – ESTUDOS LITERÁRIOS – ENTREVISTAS _____________________________________________________________________________ NESTA PÁGINA: CONTOS: BIBLIOCOM IDÍLIO DOMÉSTICO DAIMON O MUNDO DE TARZÃ RELATÓRIO PLUTO VAMPIROS NÓDOAS A VIDA PASSADA A LIMPO QUANDO AINDA SE PRECISA COMPRAR O SILÊNCIO * INFORMAÇÕES BIOGRÁFICAS ________________________________________________ CONTOS DE RAUER: * BIBLIOCOM Rauer Soube que no princípio foi o verbo. Soube que o verbo se fez substantivo. Soube que o homem foi fecundo e cresceu e multiplicou-se. Soube que o homem subjugou e dominou tudo sobre a terra, porque assim lhe foi determinado. Então se olhou e se viu forte e poderoso e acima do bem e do mal. Viu zilhões de bits percorrendo os fios e inundando os satélites com a insana palração humana. Eis que olhou a tarde e viu a aurora do milênio. Eis que olhou a terra e a viu exaurida por gerações de amanho. Quis uma nova terra. E uma nova terra se fez com palavras que se remetem umas às outras infindavelmente. Eis que o entristeceu a queda do milênio, o deprimiu a terra exaurida, o enlouqueceu a insensatez humana. Eis que o verbo se fizera substantivo e por isso quis um novo mundo, e porque quis um novo mundo, um novo mundo se fez. Então tomou ao homem em um tubo de ensaio e o moldou à sua imagem e semelhança. Eis que quis um novo homem, e apóstolos e profetas o anunciaram. Do meio do fogo, da fumaça e das trevas da babel milenar rompeu o novo tempo, e todo o saber antigo condensou-se em Bibliocom, o livro dos livros, disponível nas melhores livrarias em papel bíblia e em versão para computadores. Então crepúsculo e aurora se fundiram, e o novo mundo se apresentou, melancólico, lúgubre, sobre os escombros do tempo primordial. O verbo e o substantivo se degeneraram em advérbios e em adjetivos. Triste, quis morrer. E porque quis morrer, assim se fez. _____________________________________________ IDÍLIO DOMÉSTICO Rauer Era uma vez uma barata. O homem enxaguava os cabelos quando a viu, marrom-castanho, listras leitosas, curvando-se, entre dois azulejos, para dentro de si mesma. Despejou na criatura a água que colheu nas mãos. A carcaça tremeu, achatou-se no abrigo. Repetiu o gesto; ela permaneceu irredutível. Encheu as mãos novamente e atirou a água com raiva: a carocha deslizou pelo ladrilho, rastejou de volta à frincha. Parecia machucada. Abriu a duchinha, mirou o ser repugnante. O corpo rajado escorregou até o chão. O redemoinho de espuma sumia no ralo. Persignou-se, fechou a duchinha, espadanou-se na água quente do chuveiro. Os sinos, ao longe, repicavam. Arrotou a ceia de Natal. Incomodado com a rigidez do inseto, lançou sobre ele, com o pé, a água empoçada. Sentia na alma o gosto podre que lhe ficava das reuniões familiares. Nessa noite sua mulher, mais uma vez, intrometera-se em sua vida, inventara uma briga e o fizera sentir-se um verme. Recriminava-lhe o descaso, perorava contra a ingratidão, cobrava-lhe hombridade. Fora impertinente até mesmo enquanto as crianças encenavam um Auto da Paixão. Parecia ter prazer em agredi-lo, fazê-lo sentir-se um biltre, pisoteá-lo como a uma larva. Jogou mais água no indigesto vulto e sorriu ao vê-lo espernear. Sorriu ao ver a avantesma, da qual não despregava os olhos, espernear. Aquele agitar convulsivo o fazia feliz e colocou mais força em novos jatos de água. A correnteza engoliu o corpúsculo abjeto, que logo ressurgiu e arrastou-se para um ladrilho mais alto. Posava de louva-a-deus? O homem movimentou-se para o lado, com o pé fez uma poça maior, desfechou um tiro preciso, justo. Viu os traços lácteos revirarem no redemoinho, voltearem à beira do ralo e caírem no esgoto. Vibrou a mão, satisfeito. A agitação da água cessou. Lentamente, o ser ignominioso reapareceu. Ficou agarrado à beirada plástica da sarjeta. Parecia ofegar, olhos melancólicos, satânicos. Um último fiapo de resistência salvava o monstro pré-histórico do precipício. O homem agachou-se e cuspiu forte, mas não acertou o alvo. Encostou a cabeça no braço à parede, puxou a saliva, ajeitou-se sobre a criatura abissal e deixou a baba escorrer. A gosma, inútil, caiu. Não conseguiria, daquela forma, desaparecer a repulsiva no sorvedouro. Franziu a carranca. Levantou-se, abriu mais a torneira. A chuveirada subitamente fria o reconfortou. A água turbilhonou no sifão. Porém a intruja, osga, úmida, cor de terra, riscas espectrais, permaneceu calma e insolente como um paradoxo kafkiano, um colosso belo e forte, impávido. Passou condicionador nos cabelos. Usou o tubo do xampu para empurrar sua inquietação esgoto abaixo. Com o nó dos dedos bateu três vezes no ralo para exorcizar a presença maligna. Ficou atento. O animalúculo não voltou. Enfiou-se sob o chuveiro, massageou os cabelos. Fechou a torneira, balançou os braços para tirar o excesso de água, enxugou-se lentamente. Olhou o monograma entrelaçando suas iniciais às iniciais de sua mulher e sorriu, feliz, antevendo a noite de amor em lençóis quentes e acolhedores. Balançou a cabeça. É sempre assim: azedumes, discussões – e depois o instinto redime o casamento. Sentiu leve ereção ao lembrar-se do corpo branco e franzino de sua mulher. Ah, ele fazia aquela lagartixa marítima serpentear em convulsões de prazer! Respirou fundo. Para sacramentar a sua vitória urinou onde fizera desaparecer, junto com a azucrim, os seus aborrecimentos. Assobiou uma marcha militar. Pelo vitrô da janela identificou as estrelas do Cruzeiro abrindo asas de urubu. A Via Láctea era um jorro de esperma no céu profundo. Saiu do boxe. Sentou-se no vaso. O Natal... memória amarga... as estrelas... a festa... monogramas enleantes... sentia-se cair através do universo... dissolver-se... desmaiava brandamente, como se lhe descesse a hora final de todos os mortos. Congelou o tempo, apagou a memória. Cochilava. Flocos de neve caiam do empíreo. Suspiros lhe subiam das entranhas. Abriu os olhos. Pegou, no aparador, a sua colônia preferida. Vestiu o roupão, assoou o nariz. Barbeou-se. Imaginava-se na sacada, um charuto entre os dentes, mirando ao longe o piscar incessante das luzes natalinas. Ao voltar-se, percebeu, saindo do ralo, o corpo miúdo, acastanhado, tracejado de luminescências cor de látex. Divertira-se empurrando a pobre-diabo para os ínferos, e agora... Colocou os óculos e conferiu: era ela mesma, antenas zombeteiras, que se erguia dos dejetos. A criatura se parecia arrogar a condição de plácida joaninha no jardim burguês de uma pensãozinha qualquer, ou um gatinho vibrando a patinha com elegância, ou um cachorro bocejando tédio – idílio doméstico em jardim de dálias rechonchudas. Mas ele a queria no inferno, carcomida por miúdos vermes asquerosos, brancos, úmidos, roedores de cadáveres. Sua mulher apagou as luzes da cozinha. Percebeu o suave balanço do colchão quando ela se deitou. Armou o corpo, desferiu uma pisada forte. A desgraçada, já vira milhares delas assim lépidas, escapou. Escutou sua mulher – “Meu madruvaziiiinho...” –, arrulhar, impaciente. Fez um muxoxo: não se esquecia das grosserias dela que o fizeram perder a crucificação de Cristo. Viu sua algoz subir pela parede e pirilampar rumo aos pontos luzluzentes no manto da noite, bateu a porta do boxe atrás de si, jogou a toalha no canto do closet, entrou no quarto da suíte. Entrou no quarto e vislumbrou na cama, contra a luz, o corpo de sua mulher: era uma oferenda, não a Deus nem ao diabo, mas toda sua. Despiu o roupão, colou-se excitado à fêmea úmida. Antevia o jorro do seu orgasmo mergulhando nas entranhas dela, mas preferia estar sozinho na sacada, um charuto entre os dentes, o olhar perdido nas estrelas do céu infinito. _____________________________________________ DAIMON Rauer Envelhecida, pende, na parede branca, a placa: “Posso ser destruído; jamais, derrotado.” À esquerda, o entardecer, a luz esverdeada do computador. No cesto, jornais. Ao lado, um pincel vermelho. A janela, aberta; a persiana, fechada. O ar, parado. Da gaveta, escorre uma fita verde-amarela. Pelo chão, moedas. Poeira. Tombada, a cadeira executiva. No canto, implodido, o armário. São Jorge, a lança no dragão, espreita. Livros. Cinzeiros sujos. Chaves. Na escrivaninha, desmontado, um porta-retratos. O cofre, no fundo, às escâncaras. Teias de aranha. No forro, mofo e sujeira. O alarme pisca, intermitente. Destruído, um vaso de violetas. Respingos de terra. Pequenas conchas esmigalhadas, pisoteadas. Uma ampulheta caída, um caleidoscópio amassado. Cinzas, fotos queimadas. Uma bolsa, escova de dentes, documentos, agendas. Um envelope amassado, papéis rasgados, a lixeira, destroçada, e os óculos, quebrados. No tapete, os doze passos da paixão. Partido ao meio, um anjo, rosto em súplica. Ao lado do fax, coágulos de sangue. Elos. Numa folha branca, crispada, está escrito, em vermelho: “Como Fênix, eu voltarei”. Um amuleto de ouro preso a uma corrente grossa, mas frágil, contrasta com o caos: o Pelicano, daimon à cadeia, parece sorrir, numinoso. Do aquário tomado pelo musgo, um pequeno e solitário peixe prateado, percorrendo círculos infinitos, intenta uma saída. À réstia, a poalha, que persevera, incessante, tremeluz, espectral. Por trás do aquário, unhas cravadas em outra folha branca, a mão pálida e arroxeada de um homem pende, envelhecida. _____________________________________________ O MUNDO DE TARZÃ Rauer Aqui é o meu mundo. Mamoeiros, goiabeiras, uma sete-copas, o mandiocal. No centro do terreno, sob a cobertura de zinco, a cisterna e uma bomba de água. Encostado ao muro da rua, um telhado baixo cobre nossa perdigueira. Ela acabou de parir. Daniela cuida dos cachorrinhos: numa tigela, angu com carne; na bacia, água; em pequenos pratos, leite. Aqui no fundo, onde é úmido, papai cata minhocas. Ele coloca as minhocas em latas de extrato e vai para as suas pescarias. No canto, uma touceira de bambus, uma moita de bananeiras, e a trilha onde brinco de pega-esconde. Esse é o meu mundo: uma gangorra, pneus velhos que rodo entre os pés de mandioca, e o meu esconderijo secreto. Meu esconderijo fica por trás de um grosso tronco de mamão macho, que sobe partindo-se em galhos verticais. Despencam, desse mamoeiro, florzinhas brancas e delicadas. No esconderijo fica o meu maior tesouro, uma machadinha esculpida em madeira. Todo final de tarde eu a pego, coloco o cabo por dentro do calção e me transformo em Tarzã. Tarzã salta de um galho ao outro nas goiabeiras, escala a sete-copas, vigia o horizonte dos seus domínios. Bwana pediu água? Pega o copo de plástico, vira de uma vez, devolve. Bwana quer fruta? Tarzã quer Jane. Ela corre e deixa o copo em casa. Volta, blusa amarrada pelas pontas, botões abertos no peito, calcinha encardida. Deita-se no acamado no meio das bananeiras, perninhas abertas. Tarzã, saudade, encaixa-se, amoroso, desajeitado. Na boca. Na boca, não. Jane não gosta de beijo de língua. Levanta, rápida. Buscar lanche. Tarzã esmurra o peito, delimita o território com o seu grito. Mamãe aparece perto do tanque de lavar roupa. Bate palmas. Hora do banho, macacada! Os canarinhos de papai agitam-se nas gaiolas. Tarzã lança-se ao ar, pendura-se num galho, arremessa o corpo para a frente, segura em outro galho. Meus braços, ágeis, levam-me à forquilha que serve de trono para Tarzã. Jane traz o lanche, tendo por bandeja uma lata velha de marmelada. Pão com manteiga num papel pardo, o copo plástico, um dia com suco, outro, com leite. Jane amar Tarzã. Eu também amar Jane. Tarzã puxa Jane para o ninho nas bananeiras. Jane ri. Eu beijo seus cabelos. Tarzã bonito. Eu beijo suas faces. Na boca, não. Levo suas mãos até o volume sob o meu calção. Ela ri, gostoso. Beijo seu peito, enfio a mão entre as suas pernas. Machuca não. Tarzã hoje quer mais. Tirar, não, ela reclama. Eu desço o calção. Beija aqui. Ela fica olhando. Ri. Tô vergonha. Faço a sua mão me acariciar. Segura e aperta entre os dedos. Mexe assim, eu mostro. Jane olha fixamente. Movimenta a mão descobrindo que a pele se movimenta junto. Ri. Tarzã coloca os dedos entre as coxas de Jane. Jane folga as pernas. Tarzã acaricia e a vê fechar os olhos. Sente pequenas saliências que se desmancham como gelatina. As mãos de Jane me acariciam, os dedos de Tarzã descobrem o prazer. Ela revira os olhos, eu suspiro. Escuto longe, muito longe, o canto de um pássaro, pequenos ganidos, panelas chocando-se na trempe do fogão. Meu dedo vai escorregando suavemente... suavemente vai e volta no calor úmido... Jane geme, retesa o corpo e depois amolece toda. Ai, Tarzã, ai... Levanto-me. Visto o calção. Ela se levanta. Vou beijá-la. Na boca, não. Tiro o calção. Beija aqui. Ela fica olhando. Só um beijinho? Só um beijinho. Ela se curva. Seus lábios me tocam. Assim não, Tarzã quer beijo de verdade. Ela não quer. Depois se abaixa e beija, suave, leve... Seguro a cabeça dela. Tarzã quer mais. Assim não, ela balança a cabeça. Tarzã corre os dedos pelo cabelo de Jane. Faz um carinho pela face e orelhas e nuca e rosto. Ela abre os lábios, a língua toca a minha pele, e logo Jane tem Tarzã inteiro dentro da boca. Suga com os lábios, com a língua, com os olhos. Tarzã revira-se para trás. Cócegas. Prazer. Sensação intensa do beijo ao peito. Tarzã e Jane. Daniela, Carlos – o grito de papai é a morte na tarde. Não entendo, diz mamãe, os dois estavam aqui. Quieta, Dani, eu digo, senão papai esgana a gente. Mas eles viram as costas. Tarzã quer mais, Tarzã quer mais. Jane me beija, língua com língua. Deixa Tarzã nas nuvens, sai correndo. Então visto o calção, coloco o cabo da machadinha por dentro, salto de um galho a outro e ocupo o centro do mundo na forquilha da goiabeira. _____________________________________________ RELATÓRIO Rauer Aqui, os animais não sobrevivem sem água e ar. Em estágio inicial da escala evolutiva, dispõem de nariz, pulmões e aparelho urinário. O ano desse planeta, chamado Terra, corresponde a setenta e dois vírgula seis por cento do ano de nosso planeta. O único animal com características para se adaptar à ausência de Oxigênio – elemento em extinção no universo – nomeia-se homo sapiens sapiens: homem inteligente. É, entretanto, um desqualificado intelectual. Trata-se, apesar disso, do único ser no planeta que acumula conhecimentos. Sua ciência baseia-se nas coincidências, a escrita foi inventada há seis mil anos. Desconhece a imponderabilidade do universo. (Sejamos compreensivos: eles estão no seu ano de 1879; nós, no nosso 16.051.958.) Rodeado por viventes irracionais, dominou tudo. Os mais bem sucedidos organizam-se economicamente no capitalismo, peculiar forma de despender imensos esforços para resultados medíocres. Cada qual luta por si só. Alguns são miseráveis e vivem no escambo. Outros se dizem revolucionários e propõem uma “sociedade socialista” (sic), mas não se sabe o que é isso na prática. Segundo um filósofo, homo homini lupus – o homem transformou-se no lobo do próprio homem. Outras formas de organização da sociedade também se mostraram incapazes de promover bem-estar social, desenvolvimento econômico, progresso científico, satisfação espiritual. Muitas são as correntes religiosas às quais o homem adere. Algumas acham, inclusive, que o mundo está próximo do fim. Essa diversidade, no entanto, não aproximou o homem da verdade. Quanto mais se debate o assunto, maior a radicalização, divisões, ódios. O ponto de partida da espiritualidade é a “inspiração divina”. Primitivismo inexplicável, as fraudes são constantes. Não detectamos a existência desse mundo espiritual. Cada um dos porta-vozes do além apresenta visão diferente dos demais. Por isso, seitas, religiões e organizações espiritualistas se multiplicam. Nos momentos difíceis, o homem apega-se a ritos, o que alguns chamam de “mandinga”, muitas vezes obtendo resultado positivo. A fé, dizem, remove montanhas. Essa crença, disseminada até tornar-se verdadeira, não tem base científica. Proclama-se milagre onde existe resultado de suor. Líderes espirituais sobrevivem com doações dos fieis. Mas a grande maioria dos terráqueos passa fome. Ainda assim, procriam abundantemente. Para perpetuar a espécie, inventaram o amor. [Amor – conjunção carnal do homem com a mulher.] Não existe eugenia, mas anárquica irresponsabilidade. Experimentam, homem e mulher, sensações físicas e mentais desconhecidas entre nós. Chamam a isso sentimento. Ódio é quando sentem-se mal por alguma coisa que não deu certo. Amor é sensação de bem-estar, é desejo de ficar com alguém. Se não houver amor, não existe reprodução. Releve-se as exceções, das quais a natureza é pródiga. Mas o homem é um insatisfeito por natureza. Quando ama, ou seja, junta-se a outro, passa a experimentar o sentimento do ciúme. Ciúme é temer que o parceiro reproduza com outro terráqueo. Se isso ocorre, o ciumento é chamado “cornudo”. Linguagem incompreensível: não foi constatado chifre em ninguém, nem nos carecas “cornudos”. A mulher carrega o embrião dentro de si por nove meses. (Existem registros de que éramos assim em nossa pré-história.) Esse grotesco hábito precisa ser suprimido ou adequado ao projeto de colonização que implantaremos. Nas artes, são instáveis, confusos. Aplaudem verborragia, ignoram profundidade; apreciam facilidades, depreciam seriedade, qualidade; fingem-se argutos, escamoteiam a própria ignorância. Posam de racionais, mas exacerbam sentimentos ou formalismos – e pisoteiam a vida. A existência dessas sensações, os sentimentos, inviabilizam qualquer processo civilizatório. O amor faz surgir as famílias, micro-organizações que geram desarmonia até entre vizinhos. A sociedade terráquea é formada por individualistas de um só objetivo: acumular dinheiro. Mas, tolos, preguiçosos, dormem trinta e cinco por cento de sua curta existência. Por isso, e pelo mais anteriormente apresentado, está fadado ao insucesso qualquer esforço para desenvolvimento material ou científico dos habitantes desse planeta. Recomendo cautela quanto ao nosso interesse na Terra. Caso o homo não se modifique muito, é melhor abandoná-lo à própria sorte. _____________________________________________ PLUTO Rauer Meu desejo falecia sufocado na angústia. Impossível desnudar-me apaixonado enquanto temesse a rejeição. O pior não era não ser amado, era ver rechaçado o esforço sedutor. Não podia parecer oferecido, pedinte. Eu me faria forte, diria sem meias palavras: “Quero namorar você”. Deixando atrás de mim a possibilidade de recuar, ser e não ser, estar e não estar de querer, sem dar importância ao não ter. Deambulava contradições e lembranças, Mariela imagem única dominando meu ser, quando vi Pluto alçar as orelhas, farejar o ar e dar um salto. Os cachorros visitantes estacaram, enfileirados. À frente, uma dálmata. Pluto e a cadela tocaram os focinhos, estáticos, narinas frementes. A cauda de Pluto foi a primeira a balançar, um golpe como uma chicotada, depois uma inquieta, sutil vibração. A matilha estava logo atrás. Pluto procurou a dálmata com o olfato, lambeu o seu cio. Ela se retraiu, deu um volteio de corpo e um pequeno ganido, mostrando os dentes. Rosnou para os outros cachorros, fugiu com Pluto. Voltei ao trabalho, miudezas, Mariela. Almocei dúvidas, mastiguei decisões, palitei irrealizada ousadia: não enviei a rosa vermelha abre-alas do interesse que pretendia demonstrar. No fim da tarde parou uma camionete; um menino perguntou pela dálmata. Seu pai estava muito nervoso, o menino tinha os olhos inchados e eles queriam saber se alguém tinha visto a cachorra. O homem gesticulava irritado: guardava a cadela para um animal de pedigree e agora a dálmata teria cruzado na rua. Culpava sua mulher pela tragédia. Contei o que vira. O menino chorava. O homem explodiu: Uma cadela fina, ficando com qualquer vira-lata... Entrou na camionete, bateu a porta, deu marcha-ré acelerando fundo e desapareceu. Pouco depois, voltou: a dálmata, olhos extáticos e o pelo cheio de capim, na carroceria. Ela latia, abanava o rabo, lutava para se libertar da corrente que a subjugava. O homem contou como achara a dalmácia, descreveu com ar de nojo a cachorrada que a cercava e falou do Pluto e a cadela: estavam engatados. Jogou água fervente que buscou numa casa perto e bateu em Pluto até separarem. O pior não teria acontecido. Ainda levaria a dálmata para o puro-sangue, selecionado no canil de um milionário. Vou vender os filhotes, ter um bom lucro o homem disse. Pluto não voltou. Naquela noite conversei com Mariela. Foi um encontro de meios-tons, um suave toque nos dedos, o beijo cálido, adolescente. E o assassinato. Ela disse: “José...” diabos, não vou colocar aqui o que ela me contou. Era um sentimento sufocado, angustiante; tivera medo de falar comigo, parecer ridícula, ser desprezada, incompreendida; mas ao me ver, numa manhã, seu coração se iluminou; e ela, por um momento, sentiu forte dentro de si: amava-me. Sem amigas, sem confidentes, mimada, abriu-se com a mãe. Que proibiu terminantemente o namoro: “Um pobretão, filho de ninguém!”; se insistisse era para abandonar a escola, trancar-se na fazenda. E Mariela fora se esquecendo de mim, afastando os pensamentos; às vezes tinha um comichão, um desejo físico, queria me abraçar, namorar, mas não mais me amava. Contou isso sem maldade. Disse: “Para mim foi como se tivéssemos paquerado; depois que acaba é para sempre”. Eu argumentava que não nascemos apaixonados, que as coisas mudam todo dia, nada é definitivo, mas ali, naquela noite, entre beijos envergonhados e lágrimas, incômodas, teimosas lágrimas, ali, naquela noite e ela passava a mão no meu rosto, beijava minha face e me olhava com seus grandes olhos negros e eu mordia e beijava suas mãos e seus lábios , nós nos conhecemos e terminamos. Dessa forma incompreensível, sendo felizes mas não sabendo, não tendo forças para conservar aquele momento. Decretou, trêmula: não ficaríamos juntos. Abaixei a cabeça. Pluto, de manhã, reapareceu. Alegre, altivo. O rapaz do açougue dizia sempre: iria envenenar Pluto. Irritado, chutava-o, afastava-o do caminho. Pluto sempre submisso. Dessa vez, quando o rapaz se aproximou, ele se levantou, eriçou os pelos, esticou o rabo e rosnou mostrando os dentes. O galho seco da sete-copas vibrou de cima para baixo. Pluto evitou o golpe. Aí percebi: estava descadeirado. Mas avançou, pulou no peito do rapaz e mordeu o braço carniceiro, que ficou marcado com laivos de sangue. Praguejando, o açougueiro afastou-se, a mão esquerda amparando o pulso direito. De longe, ameaçou vingança. Pluto ladrou três vezes. Voltou ao lugar de costume. Rosnou satisfeito. Mesmo adoentado, comeu tudo que coloquei para ele. Estava, no outro dia, melhor. Mas na hora do almoço vomitou uma pasta escura, sanguinolenta. Ficou babando durante a tarde. À noite, morreu. _____________________________________________ VAMPIROS Rauer O pai da menina abraça sua nova mulher. Na tevê, a lei dizima bandidos. A menina nem pisca. A mulher beija o homem. “Aqui, ó”, mostra. Ele sente o ventre dela: “O neném está mexendo...” Sensual, ela joga os cabelos para trás. O homem ri, feliz. Comerciais invadem o apartamento. Carros, jogos, bonecas, sonho, fantasia. Móbiles pendem do teto, balançando suavemente. A menina vê o pai namorando a mulher. Sobe na mesa e diz que é um vampiro. Seu pai adverte: “Desça daí!” A menina se joga para o alto e mergulha sobre o casal. A mulher grita, encolhe-se. O homem esmurra a menina. Uma, duas, três vezes. _____________________________________________ NÓDOAS Rauer Em meu primeiro ano como professor, me apaixonei pela corruptora sensualidade de uma aluna. Ela era muito jovem: de sua inexperiência brotava criatividade maquiavélica, e nossos corpos explodiam em prazer. Numa ocasião – acaso ou armadilha, não soube definir –, surpreenderam-nos engalfinhados. Depois de discursos sobre “nódoas inapagáveis”, fomos docemente constrangidos ao casamento. Embriagamo-nos então na sexualidade sem correntes, na volúpia da felicidade. Seu corpo, escultural: pezinhos refinados, canelas grossas, coxas exuberantes. Os seios? Abundantíssimos. O umbigo, última jóia de um perfeccionista. E as ancas, credo! Tremo de lembrar onde lambi, chupei, esporrei. Ah! A boquinha que tantas e tantas vezes acariciou-me até o orgasmo... E seus pequenos lábios rosados, envoltos por lábios aveludados e frementes, e seu delicado e arroxeado nicho do amor, caleidoscópio de renovadas orgias (oh, como grita e chora enquanto o penetro, e como exclama que nunca me sentira tanto e tanto e que nunca fora tão feliz e que me ama e ama e suga e engole o sêmen que escorre com fartura e felicidade). Minha existência resumia-se às glórias desses momentos, mas percebi que seria insuportável eternizá-los. Movia-me apenas o gozo estéril, descanso e morte do criador no sétimo dia. Com outras mulheres busquei realizar instintos renovados, encontrando somente desamor e ignomínia. Alienava-me em fugas irreais. Robotizado, o amor decompunha-se. Minha mulher, não suportando o vazio de sua solidão, agarrou-se com desespero aos meus passos; impotente para conter as transmutações da natureza, disfarçou-se de eterna apaixonada; incapaz de inspirar-se (como eu) na liberdade, quis prender-me à medíocre vida de insípidos antepassados; enfim, diferentes, uniu-nos em seu estigma: fez-se mãe. E então, eu a abandonei. _____________________________________________ A VIDA PASSADA A LIMPO Rauer – Foi uma época difícil – disse o homem. – Foi muito difícil – concordou o rapaz. – Foi sua mãe que segurou as pontas – continuou o homem. – Ela era fera – disse o rapaz. – Não corra – disse o homem. – Nossas mangas não vão fugir. – Estes buracos na pista me deixam ansioso – disse o rapaz. – Você realmente pensou em suicídio? – perguntou o homem. – Ah, papai – o rapaz sorriu. – Sua mãe quase me matou de tanto falar na minha cabeça... – Ela era fera – o rapaz repetiu. – Ela me criticava muito por eu não me entender com você. Dizia que eu não tinha paciência. – Confesso que devo concordar com ela em gênero, número e grau. – Você não passa de um grande pilantra – o homem riu. – Hoje é fácil rir daquela época – o rapaz disse; – queria ver era você estar na minha pele naqueles dias. – Com todo o respeito... – o homem se calou. – Estou escutando mamãe falar – o rapaz lembrou: – “Desembucha, Randolpho”. – “Desembucha, Randolpho” – o homem imitou. – “Randolpho, essas suas reticências me matam.” – “Vai desempacar quando, Randolpho?” – o homem caiu na risada. – Ela era fera – o rapaz repetiu. – Eu é que sei, eu é que sei... – Pois é, então desembucha, pai. – Desembucha o quê, menino? – Sei lá. Você é que disse “com todo o respeito...” E, pra variar, reticências. – Ah, sim. Com todo o respeito... é... – É o quê, pai? – Essa criação de hoje em dia é moleza perto do que eu enfrentei com o seu avô. – Pimenta nos olhos do outro é refresco. – Sério – o homem pigarreou. – Moleza... – o rapaz ficou pensando. – Sopa de minhocas, como você fala... – Mas você nunca pensou em suicídio, né? Nunca pensou em matar o meu avô e em seguida se matar? – Pensar... – o homem tirou os óculos e esfregou os olhos. – Pensar, ter vontade, chorar de ódio da própria imagem no espelho, jurar vingança. – Eu jurei, sim, eu jurei – o homem disse. – Jurou o quê, pai? – Que jamais faria com um filho meu o que meu pai fez comigo. – Meu avô? Duvido que ele era impaciente com você como você foi comigo. – Ah, filho, você se engana. – Como me engano? “Isso não pode”, “isso não tem jeito”, “você não vai fazer isso”... Teve uma época que eu não podia entrar para o banho e você já vinha: “Desocupa logo esse banheiro, menino”. – Banhos de meia hora – o homem exclamou. – Você ia mesmo é se masturbar... – Mas eu não podia ter ao menos essa liberdade? – E isso lá é motivo para pensar em suicídio... – Você era meio destrambelhado, pai. – E você tem noção do quanto você era espaçoso e enjoado? – Sua tirania chateava, aborrecia, magoava – o rapaz explicou-se; – mas a falta de sensibilidade no trato é que entornava realmente as coisas. – Sua mãe era muito mais brava do que eu. – Sim, mamãe era brava de doer. Mas ela me escutava. Ela determinava as coisas com rigor, com autoridade, mas tinha sempre um carinho. O apoio e a bronca dela vinham do coração, com sentimento. – Até parece que eu era um desalmado. – Você confundia presença com amor, e amor com abrir a carteira. – Vá devagar, Dolphinho. Pra quê correr? – Sua presença, pai, era mercantil: te dou o que você pede, mas quero nota na escola, quero comportamento. Quero, quero, quero... – Você vai ter seus filhos... Vai ver que é impossível agir com o coração o tempo todo – o homem disse. – Trata-se de detalhes, pai: um gesto, um carinho... – Corre não, Dolphinho. Você vai acabar estourando um pneu numa dessas panelas... – São os detalhes, pai – o rapaz insistiu. – Não vou falar como o seu avô, “fiz o melhor que pude, só encontro ingratidão”, porque nunca me achei ingrato, e sei que você se dedica, é paciente comigo como ninguém. – Coisa que você nunca foi... – Olhando para trás vejo que meus ataques suicidas, meus ódios adolescentes, meus ímpetos parricidas, tinham muito de frescura. – Frescura? – o rapaz olhou para o pai. – Impotência – o homem esclareceu. – É... – o rapaz murmurou. – Frescura e impotência – o homem repetiu. – Explica melhor, pai. – Veja como estou – virou o tronco para o rapaz: – um homem velho, quase cego, macérrimo, semiparalisado... – Você está ótimo, pai... – Um incapaz! – Você é a minha reserva espiritual e moral... – Bobagem... Até fraldão tenho de usar, senão urino nas calças. – O que importa é que a cabeça continua ótima! – Fora uns esquecimentos... Mas se ainda não fiquei senil, estou impotente para agir... – Nem tanto. – Sim, filho. Eu bem que podia reclamar da vida, da pouca atenção da família... Mas não, procuro ter serenidade, sabedoria... Por isso, digo: se sou imaturo, adolescente, incapaz de agir... penso em matar, em morrer. – Em suma: frescura. – Sim. Sentimento que não tenho mesmo com esse maldito reumatismo me endurecendo todo... – Você tem melhorado... e sua alma é a de um jovem... – Mas com certeza não a de um adolescente rebelde, que sofre porque quer ser livre mas não quer pagar o preço das suas atitudes. – Se entendi bem – o rapaz disse, – o adolescente sofre porque não tem independência e quer agir como se fosse dono do próprio nariz. É isso? – Simplificando, sim. – Mas simplificando muito mesmo. Me conta: quando teve vontade de matar meu avô era só isso? Ânsia de independência sem considerar limites? – Quem disse que tive vontade de matar seu avô? – Você mesmo. Ou não foi você que falou ainda agora em parricídio? – Falei? – Não se faça de desentendido, pai. Você falou em ímpetos parricidas, em ataques suicidas! – Estava reforçando as suas queixas... – Isso é que é frescura. – Tergiversação, filho... – Mas antes não era tergiversação. – E era o quê, então? – Eu falei a você de como você me decepcionou. Falei do meu desapontamento com a figura do pai. Você disse que todo jovem passa por isso e que foi uma época muito difícil da minha adolescência. – Foi um período terrível, insuportável... – E você disse que na adolescência você também sofreu... – É, lembro. Falei que tive “paranóias”... – Isso, que teve sentimentos parecidos com os meus... – Tive mesmo – o homem assentiu. – Só que, pelo jeito que você se queixa, queria ver se você tivesse sido criado pelo meu pai. – Mas vovô era um doce. – Fosse você filho dele... – O que seria? – Aí, esse dramalhão piegas que você pinta viraria uma tragédia. – Como? – perguntou o rapaz, diminuindo a velocidade da caminhonete. – Hoje a criação dos filhos é muito liberal. – Parece até que a molecada faz o que quer... – Comparado... – o homem balançou a cabeça. – Você fala como se eu... – Você me trata de você... eu tratava o seu avô de senhor! Ele mandava em mim só com o olhar! Hoje, menino é que olha para os pais e os pais vão feito uns cachorrinhos obedecendo... – É... mudou. Alguma coisa evoluiu. Mas o adolescente continua tendo crises, sofrendo. Eu sofri como um condenado. – Mas se houve “alguma evolução”, como você diz, por quê que o sentimento de dor ainda prevalece? – Porque a expectativa e os sonhos do rapazinho de hoje são infinitamente maiores do que a expectativa e os sonhos do seu tempo de menino. – E daí? – o homem, pesadamente, virou a cabeça para o rapaz. – Daí que as frustrações são proporcionalmente as mesmas. Daí que o édipo de cada um continua igual há cem anos. Daí que o ódio é o mesmo, a vontade de morrer continua a mesma. – Nada... Nada justifica... – o homem gaguejou. – Você sofreu, prometeu fazer melhor. Fez melhor, mas eu esperava mais. Sofri como você. – Mas nunca... – “Desembucha, Randolpho, desembucha” – o rapaz deu uma palmada no volante. – Não se enerve, Dolphinho – o homem pediu. – Não é nervoso, pai: é ansiedade. – O rapaz ficou em silêncio. Depois insinuou: – Por que não temos uma conversa franca, sem tergiversar? – Acho que é mesmo hora de passar a vida a limpo – o homem concordou. – Prometo que assim suas mangas vão estar muito mais saborosas – o rapaz disse. – Vão ser as mangas mais gostosas da minha vida – o homem disse. – As últimas e as mais gostosas... – Não fala assim, papai. Você vai viver muito ainda, vai me ajudar a criar os filhos que vou ter... – Ah, Dolphinho... Você realiza o meu último desejo. Quero apanhar no pé, com minhas próprias mãos, uma manga daquelas bem grandes e saborosas. Quero comer igual menino, o caldo correndo no queixo. Depois, fim. – Que nada, papai. Ano que vem voltamos. – Quero que você diga a seus filhos que seu pai, o avô deles, morreu apaixonado pelas coisas gostosas da vida. – Fale um pouquinho mais alto, papai. Não escutei direito. – Diga que morri cheio de paixão pela vida. – Sei reconhecer – disse o rapaz, – e saberei sempre honrar, as suas qualidades. Também saberei elogiar o exemplo de ética e de dignidade que sempre me deu. – Mesmo fazendo você reviver as paranóias que tive e que eu me prometera não reprisar com meus filhos? – Talvez a vida, através das gerações, se constitua de circularidade e rompimento, manutenção e inovação. – A eterna luta do novo contra o velho – o homem balbuciou. – E mais essa crise da noção de paternidade no final do século vinte. – Como assim? – A descoberta precoce que os filhos fazem de que o pai não é nem herói, nem super-homem. – Quer saber como... rompi com o meu velho? – Claro que quero. – Não vá rir de mim... – Conta logo, pai. – Promete que não vai rir?... – Prometo, prometo, mas conta tudo. – Foi em mil novecentos e quarenta e cinco – o homem disse. – Como? – Foi em quarenta e cinco. Sei que foi em quarenta e cinco porque a Guerra estava no fim. – Você estava com... – o rapaz correu os dedos pelo polegar, contando. – Dezessete anos. – Eu era um almofadinha. Preparava-me para ir para a faculdade, mas me entusiasmei com a vida boêmia, atraído pelas moças das casas noturnas. Enturmei com uns rapazes de fora. Foi o que bastou para o seu avô entrar em cena. – Parece que conheço essa história... – Hoje até acho que exagerei. Comecei a fumar, chegava em casa tarde da noite, bebia... – Não estou te reconhecendo, pai... – Pois é, Dolphinho. Mas o pior estava para vir – o homem suspirou. – O pior sendo o meu avô... – Ele foi cruel, me humilhou. Foi à boate certa noite, pegou-me por uma orelha e me levou para casa praticamente arrastado. – O vovô? – o rapaz parecia não acreditar. – Ele vociferava que eu era um vagabundo, um perdido, uma desonra para a família. – O vovô? – o rapaz repetiu. – Todos... assistindo... – Deve ter sido cômico... – Para os outros, sim. Para mim foi uma tragédia, uma humilhação. Sair arrastado, com aquele homem falando aquelas coisas todas... A orelha doía, mas a alma doía muito mais... – Ele falou de drogas, de falsos amigos, como você fez comigo?! – Falou horrores! – Falou o que podia e o que devia?... – Falou... falou o que não podia... falou o que não devia... – E o que você fez, pai? – Eu chorava... Tentei me esquivar, fugir, mas... Eu era um rapaz ágil, podia ter caído no pé, mas quem disse que consegui? – E aí, pai? – Fiquei chorando... – Fala, pai. – ...ele me puxava pela orelha... e falava aqueles impropérios todos... – Não consigo ver o vovô fazendo isso... – Consegue me ver? – Você me aprontou umas... mais ou menos parecidas. – Nunca esse vexame público. – O que dói mais não é o “vexame público”, é outra coisa. – E você acha que não fará a mesma coisa com o seu filho? – Jamais – o rapaz disse, convicto. – Então, imagina: seu filho de catorze anos começa a chegar cada dia mais tarde em casa, você o pega fumando escondido, ele aparece com tatuagem e brincos, o que é que você faz? – Peraí, assim também você está radicalizando. – Mas o que é que você faz? – Tenho que entender e aconselhar. – Perfeito, entender e aconselhar. Mas ele faz ouvidos de mercador, suas broncas entram por um lado e saem pelo outro. Para obedecer, é um sacrifício. Não estuda, não lê, não quer saber de nada... – Mas o jovem é rebelde mesmo. Contesta para se afirmar. – Aí você fica sabendo que ele se reúne com uma gangue... – Mas eu nunca me enturmei assim... – Claro que você teve o seu bando... – Ainda bem que você não me humilhou diante de meus amigos. – Você vai achar os amigos do seu filho adolescentes feios e perigosos. Aos seus olhos serão pequenas pestes querendo desencaminhar o seu anjo. Foi isso que fez o seu avô ter aquela reação emocional, explosiva. – Mas nada justifica... – Eu julgava você ingênuo, despreparado para a vida. Tive atitudes semelhantes às do meu pai. – E hoje você justifica a atitude do meu avô porque você teve uma reação parecida com a dele – o rapaz ia bem devagar com a caminhonete. – Um pai sempre vai agir dessa forma, sempre vai pensar no futuro do seu filho. Pai de verdade não se preocupa com os outros, ele quer é o bem-estar do seu filho. O futuro é ingrato com os imprevidentes... – Desculpe, pai. O que foi mesmo que você disse? – Disse que o futuro é ingrato com os imprevidentes, filho. Quem não pensa no futuro se esturrica. E a experiência do pai determina sua atitude de defesa para com o filho. Mesmo depois do menino virar adulto, já ter até cabelos brancos... – Está certo, pai. Mas para quê sacanear com o menino? – Não é sacanagem. É educação, limites... – Acho que tem muito exagero, até um sadismo. – Mas também o menino faz-se de desentendido, provoca. – Menino é menino... – Um menino aos dez, onze anos, é bem capaz de saber o que está fazendo. Se não respeita a doméstica, se não respeita o professor... merece surra e castigo até aprender. – Punição, sim. Mas o que acho é que os adultos não se controlam, agridem demais sob a capa do amor que dizem sentir... Ao invés de se controlarem, dar o exemplo... – Cuidado aí – o homem disse. – Sossega, pai – o rapaz disse. – Estou vendo o caminhão. – Meu pai me arrastou pela orelha, falou no meio da boate coisas impublicáveis sobre meus amigos. Nem tentou saber porque eu estava ali. Era como se eu não existisse. Eu não fiz isso com você. – Mas você me deu um sermão de quase duas horas, sem contar o castigo. Você me arrasou. – Dolphinho... – Eu fui pra frente do espelho e chorei um tempo sem fim; eu olhava minha cara e chorava, dizia para mim mesmo que eu não podia ser seu filho, eu tinha vergonha de ser seu filho. Eu queria morrer. – Pois é, eu quis morrer, quis matar – o homem disse. – A vida é assim, um ciclo... – E você fez o quê? – Tratei de cair fora. Acabei me formando em engenharia. – E por quê que só foi se casar aos quarenta e seis anos? – Porque eu usava as mulheres como laranjas, jogava fora o bagaço. – Coisa vergonhosa... – Não me recrimine. As mulheres gostavam de ser objeto. – Minha mãe!?... – Sua mãe era diferente, ela não era uma laranja. – E era muito bonita... – Era estudiosa, metódica, organizada. Cada dia ela ficava mais sábia... – E o meu velho cada dia mais de queixo caído... – Me apaixonei. Sua mãe foi a única mulher que me deixou inseguro. – Você inseguro não dá pra entender. – Ela era muito inteligente, firme. Exigia a perfeição em tudo. Dava uma insegurança... – Por ela ser muito mais nova que você? – Isso era secundário, devido a maturidade emocional dela. – Por que a insegurança, então? – Ela não era objeto, laranja, bagaço. Era uma mulher determinada. Ela era uma fera, como você sempre diz. – E mesmo assim vocês foram muito felizes... – Sim, sim. Felizes... – o homem murmurou – Mesmo com o perfeccionismo e as cobranças dela? – Sim, sim – o homem repetiu. – Porque minha mãe morreu tão nova se ela tinha tão grande autocontrole das emoções? – Talvez por isso mesmo, filho. Autocontrole era para uso externo, por dentro ela se roía. E o coração precisa extravasar as emoções, senão pifa. – Quando você me fez aquele sermão interminável e me colocou de castigo, o que estava por trás: as lições do meu avô ou as cobranças da minha mãe? – Eu via seu avô na minha cabeça e tentava não ficar igual a ele. Sua mãe queria que eu fosse paciente com você mas exigiu uma atitude quando você passou a desrespeitar todo mundo. – Eu sei que ela brigou com você depois... – Ela disse que eu exagerei... – Concordo com ela... – É, ela foi dura comigo. – Exatamente em quê, pai? – Ela queria uma descompostura, achou que o castigo foi desumano. – E foi mesmo. – Te aleijei? Te machuquei? – Eu queria te matar. Eu já estava homem... Quer ver? Foi há... oito, nove anos... Você me tratou como uma criança... – Um rapaz de quinze anos, mais alto que eu, você só tinha crescido no tamanho. – Mas precisava me colocar ajoelhado quase duas horas em cima de grãos de feijão? – A dor física você nem lembra mais. O que doeu em você foi se ver pego como um menino, com o rosto para a parede e sem poder abaixar os braços. – Não pai, não... – Doía era imaginar que era dono do próprio nariz, e levar castigo como uma criança. O que doeu foi ver imposto limite na anarquia e definido o lugar que te cabia na ordem das coisas. – Não, pai. Não, não e não. Só tem um castigo que dói de verdade: a indiferença. O que doeu foi você não me escutar, não ter nem tentado compreender meus motivos. – É... – Fala, pai. – Não foi isso que eu reclamei que seu avô fez comigo? – Isso o quê? – Não me ouvir... – Acho que... – Mas é isso, filho – o homem exclamou. – Seu avô me humilhou diante de todos, mas o que doeu foi ele não estar atento às minhas razões. Eu não te humilhei em público, desejava só te punir exemplarmente. – Punir e magoar... – Jamais. Apenas corrigir, mostrar o rumo certo. A sua queixa foi que eu não tentei compreender você. – Você não tentou, pai. – Como meu pai também não tentou me entender. Isso nos irmana numa mesma dor, só mudou a superfície... – Sim, pai – o rapaz concordou. – Mudou o invólucro, mas o aperto no coração é o mesmo. – O sentimento do pai e o sentimento do filho – o homem disse. – Cada um com suas razões. – E cada um convicto de estar certo em seu sentimento... – Que sentimento você vai ter se eu falar para você que perdi o caminho – o rapaz estava quase parando a caminhonete. – Você tá brincando... – Acho que... – É o meu último desejo, Dolpho... – Não sei se é nessa entrada – o rapaz embicou a caminhonete. – Estou tão cansado... Vou morrer sem minha manga... – Pára, pai – o rapaz disse. – Estou brincando. É aqui mesmo. Olhe lá embaixo, perto daquele braço de rio, a copa das mangueiras. – Você não quer que eu veja coisas dessa distância, quer? – Quem disse que está longe? – Que estradinha... – o homem se queixou, enquanto a caminhonete sacolejava-se na irregularidade do terreno. – Você me magoou muito naquele dia, pai. Falei sério quando disse que ia me matar. Falei sério. – Tratei de ir cuidar da vida. Já tinha passado por isso. Fiquei preocupado, mas não podia dar o braço a torcer. Sabia que sua mãe ia contornar... – E como você resolveu a sua diferença com o meu avô? – Morria de vergonha de encontrar com as pessoas na cidade. Sua bisavó Cianinha, mãe da minha mãe, me colocou num avião para Belo Horizonte. O resto da história você já conhece. – Mas a vovó não fez nada? – Ela não era dinâmica como a sua mãe... – Entendo... – Ela era muito submissa... – Olha aí, pai, estamos chegando. – São quantas mangueiras? – Sei lá, umas trinta, não dá para ter idéia. – Como descobriu isso aqui? – O rancho do Tiné é aqui perto. – Quem é Tiné? – É o Manoel, filho da Maria e do Afonso – disse o rapaz. – De que qualidade são as mangas? – perguntou o homem. – Tem manga sabina – o rapaz respondeu, puxando o freio de mão. – Tem manga bourbon. Tem manga itamaracá. Tem pele de moça, comum, roxinha, coquinho. Tem manga de tudo o que é qualidade, pai. – Você me ajuda aqui. Não posso mais esperar... Ai, que morro... – Calma, pai – o rapaz pegou na mão do homem. – Venha aqui. Espera. A bengala. – Tem muita manga?... – Tem, sim, pai. – Vamos... – Bem aqui tem um pé de sabina. – Você sabe que é a minha predileta. – E o pé está carregado. – Será que alcanço com a bengala? – Por aqui, pai – o rapaz guiou. – Porque esse desnível... Você quer me derrubar, menino? – Pode ir, pai. Devagar. Agora passa a perna aqui. – O quê é que você está fazendo? – Você não quer apanhar a manga com as suas próprias mãos? – É o meu último desejo. – Seu último desejo é comer a manga com o caldo correndo no queixo. – Apanhar a manga é o meu penúltimo desejo, filho. – Aqui, pai. Engarrancha aqui. – Quê isso, menino. Vou cair. – Segura. Firma aí. Assim você vai alcançar as mangas. – Se alguém ver isso o que é que vai pensar... – Vai pensar que um velho bobo quer apanhar manga e um filho bobo carrega o pai a cavalo nos ombros. Só isso. – Peguei um bobo... peguei um bobo... – a memória do homem falhou. – ...Na casca do ovo... – emendou o rapaz. – Estamos perto? – Em cima da sua cabeça tem duas bem grandes e maduras. – Aonde? – o homem procurava com uma das mãos. – Fica tranqüilo, pai. Olhe para cima e pode soltar as mãos. Eu estou segurando firme. – Peguei – o homem comemorou. – Peguei. – Me dá aqui. Pronto. Pode apanhar outra. Isso. Vou deixar aqui. Segura. Vamos agora descendo... Isso. – Que mangas lindas, filho. – Lindas e gostosas, pai. – “Ela é... bonita e gostosa” – o homem cantarolou. – “Me ama e me quer...” – Aqui um canivete, pai. Pode sentar na grama e comer à vontade. – E você? – Já estou cuidando de mim – o rapaz, com um salto, alcançou uma manga. – Elas não têm bicho não? – Pode ficar sossegado. – Posso ficar sossegado que tem ou que não tem? – o homem perguntou, já mordendo uma fatia generosa. – Pode ficar sossegado que vamos voltar aqui outras vezes. – Estou feliz, filho. Que pai pode ter o que você está me dando hoje? – Todo pai... – Não sei se faria isso pelo meu... – o homem disse, o caldo amarelo e grosso escorrendo pelo queixo. – Você não voltou a conviver com ele – o rapaz disse. – Mas você o compreendeu. – Da compreensão ao perdão vai um grande espaço. – O espaço do amor que você tem por mim – o rapaz comentou, com o caldo da manga também escorrendo por seu queixo. – Ou – o homem disse, já pegando a outra manga que estava ao seu lado – o espaço do amor que você está demonstrando por mim. – Por isso que te peço, pai. Fique vivo para ver os netos que vou te dar. – Estou velho na alma e no corpo, não vou agüentar muito tempo mais. Esse é o meu último desejo, esse prazer infantil. Vou morrer a qualquer hora. Mas morro feliz. – Pára com isso – o rapaz disse, colocando outra manga no colo do pai. – Verdade, Dolphinho. – Que bobagem. – Vivi a vida. Sofri minhas dores. Lutei por meus ideais. Amei a sua mãe e fui feliz. Criei você. O que mais posso querer? – Deve me ver feliz. Me formo no ano que vem, caso-me, vou encher a sua vida de netos. – Vou estar com você, mesmo que não esteja aqui – o homem limpou a boca com as costas da mão. – Amo você e vamos estar sempre juntos, pai. – Mas diga para seus filhos que eu os amaria muito. – O senhor mesmo vai dizer. – Leia histórias para eles todas os dias e dê um beijo de boa noite em meu nome. – Farei isso sim, pai. – Diga que seu avô foi um doce para você e que eu também seria um doce para eles... – Sei que você vai estar com eles, mas se não estiver eu direi. – Pode também dizer que eu fui bravo com você como você é com eles... – Farei isso sim, pai. – Vou morrer feliz, filho. – Você não vai morrer, pai. – Perdoe-me, Dolpho, onde... onde não consegui ser... – Sem tortura, meu velho Randolpho. Super-homem só em gibi... – A vida passada a limpo... estou leve e pronto para a minha última viagem... – Morre não, pai... – Encha o mundo de crianças... – Farei isso, pai. – Ensine a meus netos que a existência humana é amarga alegria: é amarga na falta de caráter e na desumanidade dos homens, é alegria no amor e na justiça. – Sim, amarga alegria... – É, amarga alegria porque encerra na felicidade a sua própria destruição... – Pai, pai. Terei muitos filhos para nós dois brincarmos... – Vou morrer feliz, filho. – Você não quer voltar aqui e chupar novas mangas? – Claro. Sempre. – Então voltaremos no ano que vem – o rapaz também limpou a boca com as costas da mão. – Combinado. – Isso, pai – o rapaz disse. – Vamos voltar aqui na safra do ano que vem para chupar muitas outras mangas. – Combinado – o homem repetiu. – Vamos ter na vida, juntos, apenas o mel da amarga alegria... – Combinado. – E vamos voltar outros anos, trazendo netos gordinhos e rosados... – Combinado – o homem repetiu, e sua cabeça foi tombando lentamente para trás. _____________________________________________ QUANDO AINDA SE PRECISA COMPRAR O SILÊNCIO Rauer *Eu sentia vontade de estar num lugar quentinho e aconchegante, que me protegesse do mundo, que não me deixasse sofrer a vergonha daquele instante. Estava com vinte anos, nunca tivera mulher; os colegas consideravam-me entendido no assunto, mas falava de sexo só pra disfarçar a realidade. Não que... uns bichas, isso sim, mas mulher... Tive minha época de troca-troca, entre treze e catorze anos; depois, só viados. Fim-de-semana: saí com vontade de passear, sentar na pracinha apreciando a brincadeira da molecada, depois beber sozinho uma meia-garrafa e voltar para casa. Era meu programa dos sábados e não via porque alterá-lo. Cidade pequena – e Noroeste não fugia à regra – nunca aparece nada diferente; às vezes um aniversário, uma galinhada; mas é raro. Descendo a rua principal encontrei Anacleto, companheiro nos primeiros anos de escola, agora estudando fora; disse-me que viera passar seu aniversário com os pais. Felicitei-o; na efusão convenceu-me acompanhá-lo a uma festa. Eu argumentara não ter dinheiro, mas ele respondera ter ganho de seu pai uma conta no banco: queria estrear sem preocupar com despesas. Deixou-me sem desculpas. Para que trocasse a camisa fomos até sua casa, onde apresentou-me Lídia, uma sua irmã parecida com Lucinha, a menina que me deu o último banho antes que passasse a tomá-los sozinho – ela fora responsável por toda minha criação. Quando veio a vontade de sumir, a necessidade de carinho, proteção, pensava e desejava Lucinha. Eu dissera várias vezes: “Te amo, quero casar com você”. E recordei seus abraços e ela beijando minha cabeça murmurando que me esperaria crescer para casarmos. Anacleto chamou-me e saímos. Perguntei porque não levava Lídia. Explicou que sair com irmã só atrapalha “os programas que às vezes aparecem”. Filho único, faltava-me experiência; não saía com mulheres, nunca tive aborrecimentos. Meus pais, sim: nem noivaram quando fui concebido. Casaram-se e tomaram cuidado em não ter outro filho. Esse é um motivo da minha infância solitária. Também era pouco aconselhável: não ganhavam o suficiente pra uma única pessoa viver bem. E pagavam Lucinha porque trabalhavam fora o dia todo. Claro, não pensei esses detalhes aquela hora. Apenas sentia sem palavras como se Lucinha tivesse morrido, não casado, e por isso não mais trabalhasse para nós. Mesmo assim no final da noite desejei nela esconder minha desonra. Conversávamos coisas à-toa. Concordava com o que ele falava, e me sentia extremamente dependente: Anacleto pagaria minhas despesas e isso o tornava superior. Ele agia como sempre, mas eu o via, naquela hora, como se fosse meu pai... Isso porém não me aborrecia; estava tranqüilo e certo que tudo correria bem. A festa era num bairro afastado, gratuita. Encontramos alguns conhecidos e me sentia em casa. Puseram um disco, os casais se formaram. Não dançava, e fiquei com um rapaz (chamava-se Alberto) que gostava apenas de olhar e ria quando percebia algum deslize. É incrível: curtia coisas extremamente bestas. Sentei no batedor do tanque e ele na mesa de passar roupa. Nos serviram uma caipirinha. Bebi e tomei uma guaraná. Não gosto que percebam, em mim, cheiro de álcool. Alguém gritou “apaguem a luz”; as meninas protestaram veementes. Uma conhecida chamou-me para dançar; não convido ninguém por medo de ser recusado, mas jamais me nego. Evitamos a aglomeração. Sentia-me bem. Abracei forte, e ela me beliscou. Reclamei. “Se não comportar leva outro”, esbravejou sem espalhafato. Não comportei: a cada beliscão sentia prazer diferente, que enrijecia meu pênis. Forcei mais fingindo perder o equilíbrio, e ela, pega de surpresa, deixou a mão escorrer e quando tornou do susto, lascou-me beliscão grande e doído nas nádegas. Afastou-se: “É melhor pararmos”. Sentia a cueca molhada de um gozo novo, desconhecido. Voltei ao tanque. A sensação que tivera assemelhava ao delicioso alívio de quando levantava com bexiga cheia e urinava com o pênis semi-enrijecido. Pequeno, apreciava homens fortes exibirem seus músculos e ficava envergonhadíssimo se me mostravam fotografias de mulheres semi-nuas. Quando comecei a me masturbar freqüentemente, pegava foto de mulher nua, sem resultado. Para excitar-me precisava pensar que tinha relações com minha mãe – a de verdade, não a Lucinha; então lembrava um conhecido que praticava halterofilismo; unicamente com essa associação sentia-me próximo de ejacular, o que nunca consegui. De alguns amigos brotava um líquido amarelo ou fazia espumas; comigo, nada. Cheguei a pensar que fosse aleijado. Alberto fumava; irônico: “Que tal a menina?” “Muito boa, mas não dança direito não.” Mostrou-me, escondidos no tanque, um pratinho com coxinhas e um guaraná. Conversamos inutilidades. Não demonstrava: talvez sentisse raiva de mim, certa vez lhe roubei uma namorada. Belinha foi minha única paixão: em dois meses não trocamos nenhum beijo. O dia que tentei ela disse que achava melhor terminar, não estava mais dando certo. Voltei à solidão. Quando namorava Belinha tive um grande choque: descobri que meus pais também... (não tinha coragem nem de nomear!) Devido minha educação pensava sexo como sujeira, imoralidade. Então, após minhas masturbações, onde imaginava manter relações anais com minha mãe, sentia ímpetos de cortar o pênis. Várias vezes peguei uma tesoura e fui apertando-o até sentir uma dor incrível, caindo então em crises de choro diante de toda minha impotência em conter as imoralidades e sujeiras a que até meus pais se entregavam... Essa humilhação aconteceu muitas vezes. Sentia-me então cansado e abatido, nada realizava. Dispersivo, cada vez mais afastava dos poucos possíveis companheiros. Alberto foi chamado por um grupo de rapazes, despediu-se de mim e se foi. Dancei outra vez, com uma menina que me apresentaram, só que normalmente e por isso não excitei. Era tarde quando Anacleto me chamou: “Vamos dar umas voltar por aí”; fiquei pensando numa desculpa, queria voltar para casa, mas deixei me levar. Saímos e quase imperceptivelmente fomos à zona. Entramos... quero dizer: Anacleto entrou em uma casa e eu atrás. Antes me passou dinheiro dizendo que ali tinha uma loira ajeitadíssima: “Vale uma boa comida”, exclamou. Disse também que cerveja não preocupasse: era por conta dele. Assim que entramos senti cheiro de bebida. No ar, fumaça e catinga de urina. Tomava cerveja quando Anacleto me trouxe a loira. Catou uma outra e sumiu. Fiquei bebendo. A loira não agüentou minha indecisão e me puxou para o quarto. Tirou travesseiros do armário e papel higiênico da cômoda, ligou um quebra luz de reflexos avermelhados, disse “tira a roupa, bem” e foi se lavar. Descalcei os sapatos, deitei e pensei se mamãe aprovaria eu ter relações com uma prostituta; lembrei minha primeira comunhão e um viado que tinha comido e outras coisas que não sei mais. Senti vontade de mijar, fui ao banheiro. A privada estava molhada e lembrei as raivas que sentia quando ia cagar e meu pai havia mijado antes na beirada do vaso e eu lambrecava as pernas todas. Tive tentação de ir embora mas resolvi ficar... Ela ainda não havia voltado. Deitei tentando relaxar e pensando na minha mãe e no que me martelaram a vida inteira; acho que senti um certo medo... é, medo de, por não saber como, penetrar pelo caminho errado. A loira voltou enrolada numa toalha: “Ainda não tirou a roupa, bem”. Eu apenas sorri na sombra. Ela jogou a toalha numa cadeira e aninhou-se junto de mim; percebi que usava uma malha preta. Passou um braço e uma perna lateralmente sobre meu corpo e disse “vem benzinho, vem”. Virei-me frio para seu lado, ela me desabotoou a camisa. Tirei a calça e fiquei só de cueca. Ela acariciava minhas costas mas não dava nenhum beliscão. Estávamos abraçados lateralmente; ela: “Não quer nã?” Quando perguntou, rolamos e me encaixei entre seus joelhos erguidos servindo de moldura. Sentia-me esquisito, não sabia o que fazer: minhas mãos, nervosas e inúteis sobre a cama; alternávamos as faces em contato e minha boca tudo fazia para não resvalar seu corpo. Entregava-se ao que eu quisesse, mas parecia que eu... Ela disse: “Benzinho, vamos terminar de tirar a roupa”. Despi a cueca; ela cuidou que não a visse sem o colante. Enganchei-me no meio de suas pernas e iniciei um vai-e-vem sem resultado. Ela se cansou e disse que ia colocar no rumo. Ergui-me um pouco, ela esticou o braço e senti seu susto e escutei “mas está mole!?...” Voltei ao vai-e-vem. Foi inútil. Disse que não adiantava. Ela parecia desolada e inventei: “Não posso beber que não consigo, não foi culpa sua”. Sentia-me estranho, parecia que eu não era... que era, mas ainda não era... Uma confusão! Mamãe... Lucinha... E a loira, chateada, muda, cabeça baixa ao meu lado. Fomos pra sala e bebi outra cerveja antes que Anacleto aparecesse. Chamei-o para ir embora: piscou um olho, disse que ia ficar mais um pouco. Falei que ia e que estava tudo oquei e disse: “tomei três cervejas, acho”. Ele disse que pagava e falou “até outro dia então”; saí com a loira me acompanhando. Pus o dinheiro (será que compro o silêncio?) na alça de sua blusa. Repeti: “A culpa não foi sua”. E disse que não precisava ficar chateada, que ela era legal e uma mulher muito gostosa mas eu tinha tomado cerveja e era isso que tinha atrapalhado. Dei um beijo rápido nos seus lábios e me afastei pelas ruas silenciosas, escuras sombras que se abateram sobre mim. _____________________________________________ * Rauer nasceu em 1958. Cursou Filosofia e Letras, e formou-se em Estudos Sociais e em História. Quando menino trabalhou como balconista. Em São Paulo, foi “amarelinho” da Companhia de Trânsito. Voltando para sua terra natal, Ituiutaba, trabalhou como jornalista, como assessor de imprensa e como professor. Depois, foi livreiro e editor. Em livro, já publicou “Lugares Intoleráveis” (contos, 1982), “E Foram Felizes Para Sempre” (infanto-juvenil, 1989), “Cenas de Amor e Paixão” (novelas, 1997), “Iceberg" (antologia, 1999), “A gota d’água” (conto), "Ilusão e trevas" (contos, 2005) e "Qohelet" (narrativa lírica, 2006). Seu conto “A vida passada a limpo” foi selecionado no “8o Concurso de Contos Luiz Vilela” e publicado, em 1999, no volume referente ao Concurso. Os contos reproduzidos nesta página foram inicialmente publicados em livros ou periódicos. Tem prontos para publicar o romance “Os náufragos”, uma coletânea de microcontos , novos contos de uma coletânea, ainda sem título, uma novela infanto-juvenil, um volume de hai-kais e um volume com resenhas e ensaios literários. Concluiu em 2006 doutorado em Estudos Literários, na Unesp de Araraquara, editou, quinzenalmente, em 2003 e 2004, a Página LITERATURA, no Jornal “Diário Regional”, de Ituiutaba, desenvolve um ciclo de narrativas, cujo título geral é “Memorial necrônico: riocorrente”. Atualmente, é professor de literatura brasileira na UFMS. Contatos: rauer.rauer@uol.com.br. | ||
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